Biodiversidade
Patentes, Biopirataria e Falsas Promessas
Os descobrimentos da biología molecular da última
metade do século tem-nos feito ver os seres vivos como uma soma
de genes com funções determinadas que as novas biotecnologias
permitem identificar, isolar e recombinar a vontade. Como resultado disso,
quem possui o capital e a tecnologia vê o mundo como uma enorme fonte
de elementos com que jogar num lucrativo processo de "corta e cola", que
denominam "inovação" para converter os seres vivos em máquinas
ou "invenções" que produzam o que o mercado exija a cada
momento. Eles prometem culturas quase milagrosas e curas para todo tipo
de enfermidades. Para isso, entretanto, os investidores deste "corta e
cola" exigem que lhes seja assegurado um monopólio sobre seus inventos,
como se fossem máquinas. Atualmente, protagonizam uma campanha internacional
para aplicar sobre essas "invenções" um sistema que foi criado
para as próprias máquinas: as patentes.
Em teoria, o sistema de patentes e outras formas de
direitos de propriedade intelectual tem com objetivo estimular a inovação.
Os governos dão aos inventores um monopólio exclusivo sobre
suas criações, enquanto, supostamente, a sociedade se beneficia
por poder acessar a invenção e o avanço tecnológico
associado ao permitir esses incentivos por um tempo limitado.
As patentes impedem, supostamente, o uso por parte de
terceiros de uma invenção sem permissão e autorizam
o uso em troca do pagamento de uma licença. Sob o sistema de patentes
é necessário pagar um preço, seja por uma licença
para fabricar veículos Honda Civic ou direitos sobre uma série
de máquinas de costura. Ainda que se possa argumentar que este sistema
é apropriado no caso dos automóveis e outras máquinas,
devemos permitir que as corporações sejam donas das bases
biológicas da vida? Devemos outorgar-lhes um monopólio sobre
a base de nosso sistema alimentar? Deveriam os agricultores ter que
pagar royalties para poder cultivar? São os animais e as plantas
um "soma e segue" de órgãos e moléculas? Somos os
seres humanos um conjunto de características privatizáveis?
Ou devemos considerar a vida como uma realidade complexa e única,
acima da soma de suas partes, atribuir-lhe um caráter sagrado e
mantê-la fora do âmbito do que se pode comprar e vender?
Em todo caso, não deveríamos primeiro decidir democraticamente
o que queremos que nos traga uma nova tecnologia antes de incentivá-la
mediante patentes?
Mas além destas considerações tão
importantes, as patentes não podem ocultar o fato de que a inovação,
no jogo do "corta e cola", é, em muitos casos, pouco mais que a
coleta ou a extração do conhecimento dos inovadores locais,
os povos originários e as comunidades que conhecem intimamente os
recursos locais dos quais vem dependendo a sua sobrevivência. Os
pedidos de patentes, entretanto, só é possível negando
este conhecimento tradicional do meio natural e expropriando o direito
destes inovadores de controlar o fruto de seu conhecimento. Os Países
do Sul tem batizado acertadamente esta prática como "biopirataria"...
Alguns daqueles que vêem o mundo como uma mina
de genes ou que consideram que não existe marcha para trás,
tem procurado atenuar esta expoliação mediante a concessão
de certas compensações aos inovadores locais, inclusive a
possibilidade de outorgar-lhes direitos de propriedade intelectual. Entretanto
o conhecimento tradicional do meio natural é, por sua mesma natureza,
coletivo e se baseia no livre intercâmbio. Em troca, os direitos
de propriedade intelectual, quaisquer que sejam, carregam, por definição,
uma limitação a esta natureza coletiva e ao fluxo de conhecimentos
e recursos e, portanto, são radicalmente contrários ao conhecimento
tradicional do meio natural, ao seu desenvolvimento e, inclusive, à
sua sobrevivência.
É esta sobrevivência que está em
jogo na medida em que todos os países do mundo se vêem progressivamente
obrigados a adotar patentes sobre a vida. Na Comunidade Européia,
o Parlamento se encontra em vias de aprovar uma proposta que, se adotada,
permitirá patentear a vida (genes, cultivares, animais e células
humanas). Uma vez que tenha adotado esta proposta, a Europa se aliará
provavelmente com os Estados Unidos e o Japão para obrigar o resto
dos países do mundo a adotar patentes sobre animais e plantas na
futura renegociação do capítulo referente aos Direitos
de Propriedade Intelectual Associados ao Comércio (conhecidos como
TRIPs em virtude de sua sigla em inglês) através da Organização
Mundial do Comércio (OMC). Enquanto isso, os países do Norte,
em particular os Estados Unidos, não perdem nenhuma oportunidade
para pressionar os países do Sul para adotar estas patentes s mediante
pressões sobre organismos regionais de comércio ou tratados
bilaterais. Em diversas ocasiões estas pretensões encontram
eco nos setores da economia mais vinculados ao comércio internacional.
Em continuação apresentamos 14 exemplos
de patentes outorgadas em vários países do mundo sobre plantas,
animais e humanos. Cada uma tem implicações profundas e de
grande repercussão social. Todas seriam aceitas e justificadas se
a Europa e o resto do mundo adotassem legislações que autorizem
as patentes sobre a vida.
PATENTEAR NOSSO SISTEMA ALIMENTAR
Setenta por cento de nossos alimentos provém
de algumas plantas: trigo, milho, arroz, batata... A Convenção
Européia de Patentes de 1975 garante que não se poderá
outorgar patentes para variedades de plantas; o raciocínio é
que as plantas são a coluna vertebral da segurança alimentar,
produção de cultivares, reprodução e melhoramento
vegetal. Entretanto as corporações e os pesquisadores dedicados
à biotecnologia estão tratando de ultrapassar este obstáculo
sugerindo a propriedade sobre "genes" e "plantas" em vez de variedades
específicas. Como podem os genes serem algo novo? Como pode alguém
inventar uma planta? Onde estão aqueles que desenvolveram as características
desejadas originalmente? Mas, talvez mais importante ainda: O que siginfica
isto para os agricultores e para a segurança alimentar local, nacional
e global?
PATENTEAR ANIMAIS
A Convenção Européia de Patentes
e as leis nacionais européias proibem patentear espécies
e raças de animais, assim como invenções contrárias
à moral. Como sucede com a proibição de patentear
variedades de plantas, os cientistas, as corporações e os
escritórios de patentes reinterpretam estas normas e se concedem
patentes sobre animais. Esta distorção da legalidade tem
provocado na Europa uma forte reação em torno da crueldade
contra os animais. Causa alarme a confusa linha fronteiriça entre
aplicações tecnológicas em animais e em humanos. Enquanto
isso, a outros lhes preocupa o futuro da pecuária que é atualmente
uma atividade essencialmente agropecuária e familiar, mas que, com
a ajuda do sistema de patentes, poderia passar a estar sob um maior controle
corporativo.
PATENTEAR TRATAMENTOS TERAPÊUTICOS
Os tratamentos terapêuticos constantemente recorrem
a compostos bioquímicos que se encontram na Natureza. Isto acontece
tanto no caso dos medicamentos sintetizados como no caso dos remédios
utilizados na medicina natural. Muitos destes compostos derivam da diversidade
biológica dos trópicos e de regiões subtropicais.
A maioria dos indícios sobre a eficácia destes compostos
provém de comunidades locais e povos indígenas com ricos
acervos de conhecimento medicinal sobre o meio natural. Constantemente
se acusa os cientistas ocidentais de biopirataria quando expropriam não
só os compostos químicos derivados das florestas tropicais,
mas também os conhecimentos tradicionais dos xamãs e curandeiros
sobre o uso terapêutico dos recursos locais. Isto é não
somente roubo físico, mas roubo intelectual, já que os forasteiros
se apropriam e patenteiam o conhecimento local assim que retornam a seu
país. Isto é totalmente contrário à etica da
maioria das comunidades locais, para as quais a propriedade privada e o
monopólio sobre a vida e o conhecimento associado resulta algo inconcebível.
O umbral das patentes é demasiado frágil:
vai desde microrganismos como o Bt, até macrorganismos
como o Homo sapiens. Um requerimento concedido sobre uma tecnologia definida
em termos amplos pode marcar a diferença entre uma patente sobre
ratos e uma patente sobre seres humanos. Se os genes de plantas são
invenções humanas é algo para discutir. Porém,
a discussão sobre se os genes humanos são invenções
humanas acrescenta toda uma dimensão carregada de emotividade à
discussão. Esta emotividade é justificada. As leis de patentes
são ferramentas poderosas para regular o controle sobre tecnologia
e mercados. Dever-se-ia utilizá-las para controlar o destino da
Humanidade? Podem os cientistas e as companhias que os contratam ter a
propriedade intelectual sobre pessoas e sobre suas chamadas invenções
que sequer eles mesmos podem descrever? São as pessoas meras cadeias
de DNA sujeitas à aplicação industrial? Permitir patentear
a vida humana (genes, sequências, modificações genéticas,
partes do corpo e meios para programar as característifcas de nossos
filhos) é provavelmente o aspecto mais controvertido das normas
sobre patentes. E com razão. Uma vez outorgadas as patentes sobre
a vida, é impossível manter fechadas as portas ao patenteamento
de genes, células, órgãos ou outras partes do corpo
humano a partir das quais a indústria possa fazer dinheiro.
Este informe foi baseado na investigação
realizada por Janet Bell. Além disso
foi apoiada por integrantes de GRAIN
em Barcelona e Los Baños que realizaram a edição e
impressão da versão em inglês.
A tradução ao espanhol, corrigida, adaptada
e aumentada, foi realizada sob a direção do Programa
CAMBIOS.
Muitas fontes foram consultadas, entre elas: as patentes
originais, a revista Seedling de GRAIN,
vários números de RAFI Comunique de
la Rural Advancement Foundation Internacional, assim como também
materiais de "Global 2000"
e de "No Patents on Life Coalition".
Além disso, para o caso da ayahuasca, se consultou:
1) Knight, Daniella (1998), Battle over Amazon
Plant Patents, IPS, Washington;
2) Narby, Jeremy (1995), La Serpiente Cósmica,
el ADN y el origen del saber, Taquiwasi, Lima;
3) Correspondência entre a FIA e a COICA
recebida por correio eletrônico.
Agradeceremos comentários e informação
adicional sobre a biopirataria em sua região.
A edição em espanhol foi possível
graças à colaboração da Sociedade
Sueca para a Conservação da Natureza.
GRAIN (Acción
Internacional en pro de los Recursos Genéticos), é
uma ONG internacional com sede em Barcelona, Espanha. GRAIN
promove o manejo e uso sustentável da diversidade biológica
agrícola com base no controle exercido pelas populações
sobre os recursos genéticos e o conhecimento local, com especial
ênfase nos países em desenvolvimento.
Em nossa opinião, permitir patentear a vida se
opõe a este importante objetivo, já que sufoca o controle
por parte dos povos sobre seus recursos e sustento. Patentear a vida é
piratear os sistemas de conhecimento coletivo das comunidades locaiss em
todo o mundo.
GRAIN (Acción
Internacional en pro de los Recursos Genéticos).
Girona 25, pral -
E-08010 Barcelona, España
Tel: (34) 93 301 1381 - Fax: (34) 93 301 1627
Cambio Social, Biodiversidad y Sostenibilidad del
Desarrollo (CAMBIOS) da Universidad
Nacional (UNA) é um programa interdisciplinar adscrito às
Escuelas de Planificación y Promoción
Social y de Ciencias Ambientales, assim como ao Mestrado de Desenvolvimento
Rural. Por meio de seu trabalho em pesquisa e extensão tem realizado
diversas oficinas difundindo os temas da biodiversidade e sustentabilidade
em diferentes regiões do país. Deste modo tem colaborado
na elaboração de uma estratégia comum na região
mesoamericana e do caribe sobre os acordos internacionais destacando o
protagonismo das comunidades locais e indígenas na defesa da biodiversidade.
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