Biodiversidade

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"Um rio que carrega tudo, nós dizemos que é violento. Mas ninguém costuma classificar de violentas as margens que o aprisionam."

Bertolt BRECHT (1898-1956)


EMBRAPA Pesquisa Transgênicos

Órgão Mobiliza Elite de Pesquisadores para Adaptar suas Cultivares de Soja a Herbicida da Monsanto

 

Sergio Ripardo

(Free-Lance para "A Folha de São Paulo")

 

Fábio Eduardo Murakawa

(da reportagem local)

 

    A EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) já gastou cerca de R$ 1 milhão com uma equipe de oito cientistas que trabalham para adaptar a soja transgênica da Monsanto às condições ambientais do país.

    Críticos dos transgênicos, como o IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) e ambientalistas, condenam o uso do dinheiro público na pesquisa de um produto que não tem o aval da Justiça para ser vendido. EMBRAPA e MONSANTO negam favorecimento.

    Com as pesquisas, a instituição pretende incorporar ao seu produto a tolerância ao herbicida Roundup, da MONSANTO.

    Isso significa: se vier a adotar em sua lavoura uma variedade de soja transgênica desenvolvida pela EMBRAPA, o agricultor terá que comprar exclusivamente o agrotóxico da multinacional.

    A instituição utiliza suas fazendas experimentais para plantar a soja transgênica da MONSANTO, a fim de viabilizar o produto nas diferentes regiões do país.

    Quatro outras unidades da EMBRAPA participam do programa. Segundo o acordo, a MONSANTO apenas cede aos pesquisadores o material genético usado na produção do grão transgênico.

    O contrato proíbe a EMBRAPA de incorporar à sua soja tolerância a herbicidas de outras empresas.

    O interesse da MONSANTO é difundir sua tecnologia transgênica em 20% da área plantada de soja no país (2,6 milhões de ha).

    O convênio prevê ainda que a EMBRAPA transfira para a multinacional a sua relação de produtores de sementes licenciados a fabricar as cultivares da marca BR, de propriedade da instituição.

    Com esse cadastro nas mãos, a MONSANTO ficará livre para cobrar dos produtores uma taxa de transferência de tecnologia. Nos EUA, essa taxa é de US$ 12/ha.

    Os estudos começaram em 1997. Por ano, a instituição desembolsa cerca de R$ 300 mil com o pagamento de salários e de diárias aos pesquisadores mobilizados na Embrapa, em Londrina (PR), segundo Caio Vidor, chefe-geral da unidade.

    Segundo Vidor, um pesquisador recebe da Embrapa, em média, uma remuneração mensal entre R$ 3.500 e R$ 4.000.

    Hoje, cerca de 70% da soja convencional plantada pelo agricultor brasileiro traz a tecnologia desenvolvida pela Embrapa.

    Segundo a Monsanto, basta uma aplicação do seu herbicida para controlar as ervas daninhas que atacam a lavoura de soja. Atualmente o agricultor compra até quatro tipos de herbicidas.

Mordaça

    Em carta enviada em abril do ano passado a todos os chefes de unidade da Embrapa no Brasil, o presidente da entidade, Alberto Duque Portugal proibiu os pesquisadores de se pronunciar contra os transgênicos.

    Na carta, obtida pela Folha, Portugal afirma que os pesquisadores deveriam balizar todos os seus pronunciamentos aos meios de comunicação em uma apostila anexa, "independentemente de sua posição individual".

    Com o título de "Resumo da Posição da Embrapa sobre Plantas Transgênicas", o documento destaca, entre outros aspectos, a "relevância da tecnologia do DNA recombinante".


Extraído de Folha de São Paulo - AgroFolha - 18.07.2000 -

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