Fitoterapia

 
 

Plantas Medicinais e Cuidados Primários de Saúde: um Plano de Ação.

O. Akerele

     Sumário: A medicina tradicional, que é muito difundida pelo mundo, tem sido reconhecida pela Organização Mundial de Saúde como pilar essencial nos cuidados primários de saúde.

    Uma das mais importantes contribuições que a medicina um tradicional tem dado para a saúde refere-se à descoberta e uso de plantas de valor medicinal. "Salvem plantas que salvam vidas" é o grito para salvaguardar este patrimônio.

    Este artigo enfoca o papel das plantas medicinais nos cuidados primários de saúde, analisando a ação que as autoridades nacionais de saúde e desenvolvimento devem tomar, para obter o máximo benefício deste recurso natural. O papel da OMS em auxiliar governos neste esforço é também abordado.

Medicina Tradicional

    A medicina tradicional tem sido praticada nos últimos milênios, mas somente encontrou espaço nos programas da OMS desde 1976.

    A medicina tradicional, de uma forma ou de outra, é largamente difundida pelo mundo. As práticas são baseadas em crendices existentes há centenas de anos, antes do desenvolvimento e difusão da medicina científica moderna, e prevalecem até hoje. Como o seu nome indica - é parte da tradição de cada país, onde passa de uma geração a outra. Sua aceitação pela população é grandemente condicionada pelos fatores culturais, por isso, grande parte da medicina tradicional não pode ser facilmente transferida de uma cultura para outra. O que a OMS estimula os países a fazerem é identificar e explorar aqueles aspectos da medicina tradicional que fornecem remédios ou práticas seguras e eficazes para sua utilização em cuidados primários de saúde.

    Em alguns países, a medicina tradicional é uma parte integrante do sistema formal de saúde, em pé de igualdade com a medicina moderna. Em outros países isto não é o caso e a medicina tradicional, apesar de importante para indivíduos e comunidades, permanece na forma de práticas particulares, fora do sistema formal de saúde, que não pode ser facilmente organizado pelo governo. O que os governos podem fazer é assegurar que a prática da medicina tradicional não seja prejudicial, e adotar aqueles aspectos que são úteis, e de acordo com as crenças populares. Os governos podem também ajudar a desenvolver o potencial econômico inerente às plantas de valor medicinal.

Decisões da Assembléia Mundial de Saúde.

    Reconhecendo o valor potencial da medicina tradicional para a expansão dos serviços de saúde, a Assembléia Mundial de Saúde tomou algumas resoluções. Em 1976 dirigiu a atenção para a reserva de recursos humanos constituída por praticantes da medicina tradicional (Resolução WHA 29.72) . Em 1977, recomendou com insistência aos países para usarem os seus sistemas tradicionais de medicina (Resolução WHA 30.49). Em 1978, fez um apelo para uma abordagem ampla do tema "Plantas Medicinais" (Resolução WHA 31.33). Em 1987, a Quadragésima Assembléia Mundial de Saúde (Resolução WHA 40.33) reiterou os principais pontos das resoluções anteriores e das recomendações feitas pela Conferência Internacional de Cuidados Primários em Saúde convocada pela UNICEF em Alma-Ata, URSS, em 1978. Esta resolução deu à Organização um novo mandato para ações futuras nesta área.

    Recomendou enfaticamente aos Estados Membros:

- iniciar programas amplos, relativos à identificação, avaliação, preparo, cultivo e conservação de plantas usadas em medicina tradicional;

- assegurar o controle de qualidade das drogas derivadas de medicamentos tradicionais, extraídos de plantas, pelo uso de técnicas modernas e aplicação de padrões apropriados e boas práticas de industrialização.

    Em março de 1988, uma Conferência            Internacional sobre Conservação de Plantas Medicinais foi convocada em Chiang Mai, Tailândia, pela OMS em associação com a União Internacional  de Conservação da Natureza e Recursos Naturais (IUCN) e pelo Fundo Mundial da Vida Selvagem (WWF). Um resultado deste encontro foi a adoção da Declaração de Chiang Mai intitulada: "Salvem as Plantas que Salvam Vidas". Esta declaração coloca as plantas medicinais, o seu uso racional e sustentável, e sua conservação, firmemente na arena da política e de interesse da saúde pública.

    Dois meses depois, em maio de 1988, a Quadragésima Primeira Assembléia Mundial de Saúde (Resolução 41.19) endossou a Declaração de Chiang Mal em seu apelo pela cooperação e coordenação internacional visando o estabelecimento de programas de conservação para assegurar a disponibilidade de quantidades adequadas de plantas medicinais para as futuras gerações.

    É válido enfatizar que a pressão para "Salvar Plantas que Salvam Vidas" é apenas uma parte das preocupações mais amplas da OMS com o meio-ambiente. Plantas medicinais são uma parte pequena, mas importante, da herança biológica do mundo.

    Sociedades tradicionais dão um alto valor a esta herança, expressão de seu íntimo relacionamento com a Natureza. É sugestivo o crescente reconhecimento do mundo industrializado de que estes chamados "valores tradicionais" são válidos para todas as pessoas. Respondendo à deterioração ambiental e ecológica que  ameaça a saúde e o desenvolvimento em toda parte, levantou-se um movimento mundial com a finalidade de conscientizar as pessoas dos perigos que ameaçam nosso planeta e fazê-las colaborar com a preservação de sua integridade.

Cuidados Primários de Saúde e Plantas Medicinais.

    Cuidados primários de saúde requerem a utilização de todos os recursos locais apropriados e disponíveis que, em países em desenvolvimento, quase sempre incluem a medicina tradicional e seus praticantes. Nos locais onde a medicina tradicional é bem assimilada pelas comunidades, faz bastante sentido adotar as práticas tradicionais seguras e úteis, e incorporá-las no planejamento  e implementação dos sistemas formais de saúde.  Contudo, isto significa elevar a medicina tradicional às bases científicas, Os países devem fazer um exame crítico da "matéria médica" e das práticas locais, identificar corretamente as plantas e outras substâncias naturais utilizadas, decidir quais remédios e práticas são úteis e suprimir aqueles que evidentemente são ineficazes ou perigosos. Isto significa muito trabalho, mas vale a pena. É fato inegável que no mundo atual os medicamentos à base de plantas medicinais tem um papel vital nos cuidados de saúde para grande parte da população mundial, especialmente nos países em desenvolvimento; em muitos casos, estes medicamentos  suprem a lacuna entre a disponibilidade e a demanda de medicamentos modernos.

    O uso de plantas medicinais na medicina tradicional, encontra sua expressão natural e principalmente seu desenvolvimento, nos cuidados primários de saúde. É neste nível que a transição da prática tradicional ao cuidado médico, pode ser mais facilmente realizada. Na China, por exemplo, as plantas medicinais são parte integrante do sistema formal de saúde e são utilizadas em 40 por cento dos casos a nível de cuidados primários de saúde. Os suprimentos estão assegurados pela "Chinese Crude Company" de caráter estatal e que tem ramificações em todas as províncias, regiões autônomas, municípios e distritos. Anteriormente, plantas medicinais eram predominantemente coletadas em estado silvestre, mas à medida em que as áreas cultivadas aumentaram as fontes naturais foram sendo esgotadas. Por isso estímulos especiais estão sendo direcionados no cultivo de plantas medicinais e  departamentos agronômicos participam em todos os níveis na formulação da política e estabelecimento de plantações, que hoje cobrem aproximadamente 330.000 hectares.

Espaço e Prioridade das Plantas Medicinais no Desenvolvimento Nacional.

    A atenção dirigida pelas autoridades e administrações de saúde para o uso de plantas medicinais aumentou consideravelmente, embora por diferentes razões, nos diferentes setores. Nos países em desenvolvimento, isto resultou principalmente da decisão de levar mais a sério a medicina tradicional e de explorar a possibilidade de utilizá-la em cuidados primários de saúde. Em outros países as autoridades de saúde foram obrigadas a reagir ao crescente interesse do público no uso de plantas medicinais.

    O contraste entre a situação nos países em desenvolvimento e nos países desenvolvidos apresenta um desafio para as autoridades nacionais de saúde. Ao passo que é reconhecido o fato de que os trópicos são uma fonte rica de plantas com propriedades medicinais, o estudo e o reconhecimento destas propriedades ainda permanecem, em grande parte, nas mãos dos países industrializados. Por exemplo, os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos EUA, estarão coletando para fins de estudos, 4.500 espécimes de plantas superiores, por ano, durante os próximos cinco anos, procedentes da África, América do Sul e países tropicais do sul da Ásia. Os espécimes não estão sendo coletados ao acaso; isto será uma tentativa deliberada de usar conhecimento local de medicamentos tradicionais para focar estas plantas que são ou foram usadas por suas propriedades medicinais. Será dada uma atenção particular aos extratos de plantas que demonstram propriedades anticancerígenas e antivirais (incluindo o vírus da AIDS). Estima-se que serão descobertas de 3 a 30 novas drogas. Caso esta procura seja bem sucedida, o valor econômico destas drogas será estimado em centenas de milhões, se não bilhões, de dólares.

    Os países que desejam fazer pleno uso da herança de sua medicina tradicional, incluindo a riqueza das plantas medicinais que a maioria deles possuem, tem então um interesse particular em patrocinar estudos etnomedicinais, reunindo botânicos, médicos, farmacêuticos e outros, com o objetivo de estimar o potencial de desenvolvimento desta área.

    Estes estudos incluiriam uma revisão e inventário nacional, da utilização de plantas medicinais e de medicamentos derivados delas.

    Este tipo de inventário, que ainda está para ser realizado em muitos países, precisaria descrever a distribuição geográfica e climática destas plantas, sua origem (coleta em estado silvestre, cultivo "in situ" ou "ex situ" em jardins botânicos, plantações comerciais, etc.) e uma indicação de sua relativa abundância ou escassez.

    Para cada planta seria feito um relatório sobre sua utilização (por exemplo: medicina popular, curandeiros tradicionais, indústria farmacêutica ou de alimentos) e sua posição no comércio (por exemplo: uso local, comércio interno, exportação). Teria também uma descrição dos métodos de preparo dos remédios tradicionais, seus constituintes, propriedades farmacêuticas e indicações terapêuticas.

    É claro que a investigação, utilização e exploração de plantas medicinais por um país, teria que incluir medidas preservacionistas. Preservação e levantamento de plantas medicinais teriam que ocorrer paralelamente, a última sendo essencial para a identificação das espécies em perigo de extinção, para estabelecer prioridades e monitorar a situação.

    Na base de "planta por planta", estudos farmacêuticos e clínicos poderiam ser realizados para avaliar a sua segurança, eficácia terapêutica e potencial para utilização comercial, conduzindo ao desenvolvimento de políticas de preservação. Assim sendo, conservação e exploração comercial seriam concentradas em:

- plantas comumente utilizadas pela população e comprovadamente seguras.

- outras plantas que podem ser usadas no tratamento de situações graves e que são valiosas devido a sua comprovada eficácia terapêutica;

- outras ainda que podem ser de grande importância econômica como itens do comércio interno ou exportação.

    Este programa de atividades abrangentes tem importantes ramificações tecnológicas e desenvolvimentistas. Poucos países em desenvolvimento podem dar-se ao luxo de estudos esotéricos: os recursos nacionais são por demais escassos e são numerosas as prioridades concorrentes. O pragmatismo tem que ser encorajado e deve-se aproveitar as oportunidades de união com outros interesses. Onde os departamentos de agricultura e silvicultura estão realizando mapeamento dos recursos nacionais, as plantas medicinais podem ser aí acrescentadas. Onde universidades e instituições de pesquisa e desenvolvimento estão envolvidas no estudo do meio-ambiente e ecologia, pode se encontrar um lugar para as plantas medicinais, principalmente aquelas que correm perigo de extinção. Onde a ênfase é dada para o desenvolvimento de pequenas indústrias locais, o potencial industrial das plantas medicinais pode ser priorizado. Onde os ministérios de educação estão procurando métodos pedagógicos inovadores para o ensino das ciências naturais ou para a divulgação do conhecimento de valores tradicionais, o uso de plantas medicinais locais pode ser incorporado ao currículo das escolas.

    Então é necessário fazer uma abordagem ampla e reunir as principais disciplinas e interesses correlatos - saúde, agricultura, indústria, comércio, universidade - sob alguma forma de mecanismo de coordenação. Tal corpo avaliaria necessidades e prioridades, formularia a política nacional, ajudaria a mobilizar recursos e asseguraria o desenvolvimento ordenado de trabalho e pesquisa neste campo.

    A prioridade que deve ser dada a este assunto pode ser sustentada racionalmente em termos atuais de utilidade e economia, mas a importância cultural da medicina tradicional não deve ser esquecida.  Muitas culturas tradicionais estão sendo ameaçadas por novos valores, alguns modernos e alguns estrangeiros. Os governos preocupados em salvaguardar a identidade nacional podem muito bem explorar a medicina tradicional com este objetivo. Da mesma maneira que a riqueza e a diversidade genética das plantas tropicais assegura seu maior potencial biológico, a humanidade teria que olhar para a sua própria diversidade cultural como uma fonte de força para o seu desenvolvimento futuro.

Transferência de Tecnologia

    O Programa de Medicina Tradicional da OMS tornou-se parte, recentemente, de um novo programa global referente ao Manejo e Política de Drogas.  Talvez as razões chaves para esta mudança sejam: em primeiro lugar a reconhecida importância de plantas  como fontes de produtos com valor medicinal, em segundo lugar, o reconhecimento de que é necessário uma infraestrutura tecnologicamente adequada para  que este potencial seja aproveitado. As tecnologias específicas necessárias são encontradas na indústria farmacêutica. Onde os países estão no processo de construção de tais indústrias, os recursos naturais que possuem na forma de plantas medicinais serão explorados no seu potencial máximo.

    Apenas uma fração de todas as plantas do mundo já foram estudadas. Mesmo destas, a humanidade tem tirado enormes benefícios. Reconhece-se o benefício que o curare trouxe para a arte da cirurgia e o uso inicial da reserpina para a hipertensão arterial.  Fisostigmina, em valioso alcalóide extraído do feijão Calabar, (também chamado eseré), que era usado na Nigéria como um "veneno de julgamento das más ações", é usado ainda hoje como agente colinérgico      em oftalmologia. Outros derivados tem fornecido potentes compostos que são empregados como inseticidas.

    Assim o grande número de plantas que ainda não foram estudadas, constituem uma rica fonte potencial a ser explorada pelo mundo em desenvolvimento. Aqui a moderna tecnologia pode ter um papel importante. Foram necessárias várias décadas para que as drogas que acabei de mencionar emergissem dos estudos iniciais e fossem introduzidas no arsenal médico. A tecnologia atual pode acelerar este processo de maneira tremenda.

    A aplicação de métodos científicos modernos no cultivo, seleção, fabricação e ensaios clínicos de medicamentos à base de plantas medicinais é a maneira mais adequada para transformar a ocupação tradicional em moderna prática industrial. A este respeito, os modelos chineses e japoneses ao lado de outros modelos identificados, podem ser considerados pelos demais países que estão desenvolvendo seus próprios sistemas. Produção industrial exige a adoção de tecnologia agroindustrial apropriada, a fim de obter quantidades adequadas de plantas medicinais com qualidades físicas e químicas padrão. Há então necessidade do cultivo em larga escala dessas plantas,   dedicar atenção a seu melhoramento genético.

    Na terceira Conferência da UNIDO em Indústria Farmacêutica, em 1987, OMS e UNIDO concordaram em:

- assistir países em desenvolvimento na condução de estudos farmacológicos e ensaios clínicos de produtos derivados de plantas para assegurar a regularidade dos padrões de segurança e qualidade;

- conduzir programas educativos especiais para divulgar o uso apropriado de medicamentos à base de plantas; e

- organizar consultas a nível regional em várias facetas da indústria de plantas medicinais, com ênfase especial nos padrões de qualidade e segurança, com o propósito de promover o uso e a aceitação em escala mais ampla de medicamentos à base de plantas.

    Por causa do valor econômico potencial das plantas medicinais, acordos comerciais podem ser solicitados pelos países em desenvolvimento que incluam o fortalecimento de experiências e capacidades tecnológicas locais. Um ponto de partida natural seria o fortalecimento da capacidade de sistemas de coleta e  análise de dados requeridos para o mapeamento econômico da flora medicinal, com perspectivas de aplicação industrial. Se o potencial econômico é suficientemente grande, passos podem ser dados para estabelecer bancos de dados de plantas medicinais e produtos derivados de plantas, em níveis regionais e nacionais para facilitar a troca de informação. Estes sistemas poderiam fazer parte de um sistema de informação mais amplo relacionado à saúde, ao meio-ambiente, ao desenvolvimento econômico ou outros setores, quando conveniente.

    Pesquisa e desenvolvimento nesta área apresentam alguns desafios específicos. Por exemplo, em muitos países, formulações tradicionais geralmente contêm uma combinação de várias plantas, dando a impressão de que alguns constituintes de plantas são efetivos apenas na presença de outros. Isto torna a avaliação da eficácia e a identificação de princípios ativos muito mais difícil do que para preparados de uma única planta. Todo este assunto da análise racional no uso de prescrições de plantas medicinais combinadas, oferece um vasto campo e uma excitante oportunidade para pesquisa. A adição de modernas drogas sintéticas nos remédios tradicionais complica a avaliação ainda mais, por isto deve ser evitada.

    Escrevendo sobre a medicina japonesa Kampoh (ervas), Teresawa chama atenção para os três níveis do que eu chamo de pirâmide de avaliação:

- na base, avaliação farmacológica e biológica da eficácia das plantas medicinais individuais incluídas nas receitas Kampoh;

- avaliação farmacológica da eficácia de fórmulas Kampoh, que geralmente contêm uma combinação de várias plantas;

- no ápice da pirâmide, a avaliação clínica da eficácia de medicina Kampoh como um todo, usando modernos procedimentos de pesquisas e ensaios clínicos controlados.

    Em geral, medicamentos japoneses Kampoh são baseados em plantas e os resultados que Teresawa assinala se aplicam a pesquisa de plantas medicinais em qualquer parte do mundo. Estes são desafios que têm que ser dirigidos àqueles que trabalham neste campo.

Informação Pública e Educação Profissional

    Em anos recentes, houve um aumento repentino do uso de ervas e outras plantas. O assunto tem recebido ampla cobertura da  imprensa e de publicações leigas, muitas vezes não críticas e não compravadas  e algumas até perigosas. Para garantir a segurança do uso de plantas medicinais e remédios derivados delas, são necessários  não apenas medidas de controle, mas também um esforço substancial em informar o público e na educação profissional.

    É comum a afirmação e a crença que remédios de origem natural são destituídos de perigo e de riscos para o consumidor.  Nada poderia estar mais distante da verdade, principalmente onde existe o perigo de ser coletado, por engano, a planta errada, talvez tóxica, ou onde preparados à base de ervas são colocados no mercado com adição intencional de potentes substâncias sintéticas não declaradas.

    Em todos os países desenvolvidos e em desenvolvimento, o público e os profissionais de saúde precisam ser providos de informação oficial e atualizada quanto às propriedades benéficas e possíveis efeitos danosos dos remédios tradicionais.

    Segurança deveria ser o critério dominante na seleção de plantas medicinais para o uso no sistema de saúde. Diferentes procedimentos de avaliação, análises químicas, ensaios clínicos e medidas reguladoras, teriam que ser aplicados aos vários grupos de produtos, que são: plantas inteiras ou partes delas; extratos brutos; ou substâncias fitoquímicas puras. Enquanto procedimentos menos rigorosos poderiam ser aplicados para os primeiros dois grupos, o mesmo procedimento aplicável para drogas sintéticas teria que ser aplicado para o último grupo. Além da necessidade de monografias descritivas do material vegetal, existe ocasionalmente a necessidade das substâncias de referência. Até que elas possam ser disponíveis de um local central, a OMS auxiliará na identificação de laboratórios nacionais que sejam capazes de fornecer amostras de substâncias naturais para serem usadas para fins de referências.

Programa de Medicina Tradicional da OMS.

    Fazer uso completo e correto dos seus sistemas tradicionais de medicina representa um passo importante para os países que estão tentando melhorar a saúde de sua população.

    O Programa de Medicina Tradicional da OMS vai continuar colaborando estritamente com países que deram ou expressaram a intenção de dar um passo nesta direção. O Programa tem cinco componentes principais:

Programa à Médio Prazo

- Desenvolvimento do programa nacional

- Sistemas de saúde e pesquisa operacional

- Pesquisa clínica e científica

- Educação e treinamento

- Troca de informação

    Na área de desenvolvimento do programa nacional, a OMS colabora com Estados Membros na revisão de políticas nacionais, legislação e decisões da natureza e extensão do uso da medicina tradicional nos seus sistemas de saúde.

    Isto inclui auxiliar os Ministérios de Saúde no estabelecimento de mecanismos apropriados para a introdução de medicamentos tradicionais nos       programas de atendimento primários de saúde, em avaliar segurança e eficácia, e em assegurar provisões adequadas de matérias brutas e processadas, e controle de qualidade.

    Pesquisa é uma ampla área de esforço que inclui sistemas de saúde e pesquisas clínicas e científicas. Sistema de saúde e pesquisa operacional implicam em estudos do potencial e das limitações do uso de práticas tradicionais nos sistemas distritais de atendimento primário em saúde, levantamentos das práticas médicas tradicionais, e levantamento das plantas medicinais e outras substâncias naturais usadas.

    Estudos comparativos entre medicina moderna e tradicional avaliam as suas respectivas vantagens clínicas e econômicas, e a aceitabilidade cultural dos dois sistemas.

    Investigações clínicas e científicas também são necessárias, tanto quanto na medicina ocidental. instituições nacionais engajadas na pesquisa da medicina tradicional estão sendo identificadas e   contactadas pela OMS. No contexto de uma estratégia de pesquisa abrangente em saúde, estas instituições estão sendo encorajadas a pesquisar a segurança e a eficácia de muitos dos remédios usados pelos médicos tradicionais, do ponto de vista da etnobotânica, antropologia médica, farmacologia experimental e prática clínica, assim como conduzir estudos epidemiológicos.

    Na área da educacão e treinamento, a OMS promove a aquisição de conhecimento e experiências não apenas pelos práticos tradicionais, mas também pelos outros agentes de saúde. Quando propõe o treinamento de práticos tradicionais, a OMS enfatiza o desenvolvimento do conhecimento e habilidades de tais indivíduos dentro da rede de atendimento primário em saúde e proporciona-lhes uma oportunidade para partilhar sua experiência com outros. É também encorajada a incorporação de elementos da medicina tradicional no programa de treinamento de outros agentes de saúde e fornecimento para comunidades de material educativo sobre as práticas válidas da medicina tradicional.

    Outro aspecto do trabalho a ser feito é a produção de folhetos, manuais e outros materiais de ensino e referência: o reconhecimento, preparo e uso das plantas medicinais; formulários nacionais das plantas medicinais e outras substâncias naturais; o cultivo, colheita, distribuição, armazenamento e processamento das mesmas e a metodologia dos levantamentos.

    É dado suporte em treinamentos avançados em disciplinas especiais relacionadas com medicina tradicional, que incluem avaliação clínica e toxicológica e padronização dos remédios.

    Finalmente, a OMS desempenha um papel vital na   troca de informações, não somente em medicina tradicional, mas em praticamente todos os aspectos de saúde pública. O Boletim Internacional sobre Medicina Tradicional (International Traditional Medicine Newsletter) publicado pelo Centro de Colaboração de Chicago (Chicago Collaborating Centre) é um veículo para a troca de informação sobre o assunto e oferece aos indivíduos e às instituições um meio valioso de ficar em contato com o desenvolvimento em outras partes do mundo.

    NAPRALERT é sigla para Natural Product Alert. Consiste de um banco de dados computadorizado sobre  usos  medicinais de produtos naturais e inclui perfis etnomédicos, farmacológicos e fitoquímicos. A informação é disponível mediante solicitação e no caso de países em desenvolvimento, é gratuito. Este serviço centralizado e computadorizado possibilita uma grande economia de tempo, de esforço e de recursos financeiros.

Conclusão

    O uso apropriado de plantas medicinais é uma necessidade, não um luxo. Un dos elementos críticos para o sucesso do cuidado primário em saúde é a disponibilidade e o uso de drogas apropriadas. A Conferência de Alma-Ata sobre Cuidados Primários de Saúde recomendou aos governos que dêem alta prioridade à utilização da medicina tradicional, incluindo a incorporação de remédios tradicionais comprovados, em seus regulamentos e políticas de medicamentos. Nos dez anos após Alma-Ata , planejadores do setor de saúde de muitos países deram os primeiros passos, entre os quais, identificação de plantas ou extratos de plantas localmente disponíveis e que puderam ser acrescentadas utilmente às listas nacionais de medicamentos para uso em cuidados primários de saúde e que foram capazes até de substituir alguns preparados farmacêuticos que necessitariam ser comprados ou importados.

    Ao dar estes passos, os países necessitam fazer da segurança a consideração principal, não apenas por meio do treinamento do quadro profissional e técnico e  a aplicação de padrões, especificações e boas práticas de fabricação, mas também fazer com que o público continue bem informado sobre o assunto.

    Muitas destas atividades já estão sendo executadas pelos próprios países, com relativa independência de financiamento pelo exterior. O envolvimento da OMS é e continuará sendo, em grande parte, de natureza catalizadora e deve continuar assim. Felizmente, o Programa de Medicina Tradicional tem muitas conexões com outros programas da OMS, com outras agências e organizações internacionais e com departamentos, de governos e universidades, correlatos.

    O desafio será descobrir as melhores maneiras para se trabalhar juntos. A recente resolução da Assembléia Mundial de Saúde (40.33) serve para fazer lembrar a todos os envolvidos que existe ainda muita coisa para ser feita. Apoio oficial importante em seus próprios países e provavelmente o que os trabalhadores deste campo mais necessitam.

Informação Básica

1. WHO:

1987 - Global Medium-Term Programme (Traditional Medicine) covering a specific period 1990-1995 (WHO document TRM/MTP/87.1).

2. FARNSWORTH, N.R.:

1984 - How can the well be dry when it is filled with water? Economic Botany - 38, 4 (1984).

3. International Trade Centre UNCTAD/GATT:

1982 - Markets for Selected Medicinal Plants and their derivatives" - Geneva.

4. AKERELE O.; Stott G.; Lu Weibo (Eds):

1987 - The American Journal of Chinese Medicine, Supplement Number 1, 1987, "The Role of Traditional Medicine in Primary Health Care in China."

5. FARNSWORTH N.R.; AKERELE,O.; BINGEL, A. S.; SOEJARTO, D. D.; ZHENGANG, Guo - Medicinal Plants in Therapy, Bulletin of the World Health Organization, 63 (6), 965 (1985).

6. Report of the Third Consultation on the Phamaceutical Industry, Madrid, Spain, 5-9 October 1987 of the United Nations Industrial Development Organization.

7. TERESAWA, K.:

1987 - "The Status of Traditional Sino-Japanese (Kampoh) Medicine currently praticed in Japan", paper presented at the International Satellite Symposium on "The Role of Plants and Traditional Medicine in Primary Health Care", held in conjunction with the Twenty-Eighth Annual Meeting of the Society of Economic Botany, 1987, Chicago.


WHA - Assembléia Mundial de Saúde

UNIDO - Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial.

Tradução: André A. R. de MEIJER e Ceres B. LAUS.

Revisão: Marianne C. SCHEFFER e Marli Madalena PEROZIN.

Contribuição de Marli Madalena PEROZIN. Curitiba/1989.

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