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Cientista Brasileiro Encontra Insulina em Plantas Brasileiras

    José Xavier-Filho, professor de bioquimica da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) descobriu em seu laboratório que as plantas são capazes de produzir insulina. Isso muda o conceito tradicional de que somente animais vertebrados são capazes de fabricar insulina.

    Inicialmente, a identificação da insulina em sementes de feijão-de-porco (Canavalia ensiformis), uma planta da família das leguminosas, aconteceu por acaso.

    O grupo de Xavier-Filho é reconhecido na comunidade científica por estudos bioquímicos sobre a resistência de plantas a insetos.

    Uma aluna sua de doutorado, estudando proteínas que poderiam estar ligadas à resistência da semente do feijão-de-porco a insetos como o caruncho, isolou várias candidatas. Ao participar de um curso sobre identificação (seqüenciamento) de proteínas, a professora perguntou quem tinha uma proteína "limpa" (purificada) para ser analisada.

    Elenir Oliveira, a aluna de doutorado, disse que tinha e escolheu uma ao - acaso - para ser seqüenciada. No dia seguinte, a professora chamou Xavier-Filho para dizer que havia algo de errado: a seqüencia da proteína da semente de feijão-de-porco era idêntica à da insulina bovina.

    Segundo o pesquisador, a surpresa foi enorme. Afinal, até aquele momento era tido como verdade estabelecida que plantas não produziam insulina, só animais.

    Todos os procedimentos de isolamento e identificação da proteína foram revisados e repetidos. A proteína foi resseqüenciada, não uma, mas sete vezes, para confirmar o resultado.

    Além da insulina, Xavier-Filho identificou na planta uma proteína que corresponde a um receptor para a insulina, idêntico em 90% da seqüência ao receptor humano (receptores são proteínas capazes de se ligar a várias substâncias, promovendo algum tipo de modificação celular).

    Para comprovar que a proteína isolada (que ganhou o rotulo G2) era mesmo insulina, Xavier-Filho usou camundongos diabéticos, ou seja, com níveis elevados de açúcar no sangue. Ao fornecer a G2 para essas cobaias, os níveis de açúcar baixaram e se tornaram equivalentes aos dos ratinhos normais, usados como controle.

    Com os resultados, que foram inicialmente apresentados à comunidade científica durante um encontro de bioquímicos, o pesquisador e seu grupo escreveram um artigo que foi enviado à prestigiada revista britânica "Nature".

    Xavier-Filho passou, então, a analisar plantas que são comumente utilizadas na medicina popular para o tratamento de diabetes, como a pata-de-vaca e o feijão-de-corda. A insulina está presente nas duas.

    Para a produção de 1 g de insulina é preciso cerca de 4,8 kg de casca da semente de feijão-de-porco. Apesar de essa quantidade de insulina parecer pequena, em termos de concentração, comparada com outras proteínas da casca é uma quantidade considerada "razoável" pelo pesquisador.

    Xavier-Filho já entrou com um pedido de patente do processo de extração da insulina da semente.

    O resultado da identificação da insulina no feijão-de-porco, pelo inusitado e pelas possíveis conseqüências da descoberta, levaram José Xavier-Filho a tentar publicar um artigo científico na conceituada revista britânica "Nature", em 98.

    "Eles abriram o envelope e devolveram, dizendo que não havia interesse. Fiz a mesma coisa com a "Science". Nem leram", diz o pesquisador.

    A interpretação de Xavier-Filho para a recusa do artigo é decorrência de uma declaração feita por um pesquisador norte-americano, membro da Academia Nacional de Ciências dos EUA, para quem foi apresentado o trabalho.

    "Quando você tiver o gene, eu publico o seu trabalho; sem o gene, ninguém acredita - disse esse pesquisador para mim", conta Xavier-Filho, que não quis identificar seu nome.

    Até alguns anos atrás, a identificação de uma proteína era mais do que suficiente para comprovar sua existência e produção por um organismo.

    No entanto, com o crescimento das conquistas da genética e da biologia molecular, desenvolveu-se toda uma cultura de supervalorização dos genes.

    O artigo, que foi recusado quatro vezes, saiu finalmente na revista "Protein and Peptide Letters", que publica resultados da área de bioquímica. "Ele foi aceito em 24 horas."

    O trabalho de Xavier-Filho continuou com a identificação do receptor para a insulina e sua localização na semente. Esses resultados foram enviados novamente, mas de maneira informal, a uma editora da revista "Nature", a brasileira Andrea Kauffmann-Zeh.

    Consultada pela "Folha de SP" a respeito do artigo, Kauffmann-Zeh afirmou que, na sua opinião, não haviam sido feitos os experimentos necessários para provar que a proteína isolada era mesmo insulina de plantas.

    No entanto, a editora ressalvou que a revista não recusou o artigo, pois ele não foi submetido oficialmente.

    A favor do artigo, durante a última reunião da SBBBM (Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular), que se encerrou esta semana em Caxambu (MG), estava o norte-americano a quem Xavier-Filho havia apresentado o primeiro trabalho.

    "Esse camarada concordou que temos resultados que mostram o que dizemos", afirma o brasileiro.

    Apesar da desconfianca de algumas revistas, a pesquisa de Xavier-Filho inspirou outros cientistas brasileiros. "O trabalho do Xavier me levou a tentar produzir insulina humana em plantas", afirmou Adilson Leite, pesquisador da Unicamp, que desenvolveu plantas que produzem hormônio de crescimento humano.

* Extraído de Folha de São Paulo, 03/06/2000

 * Contribuição de Tania Maria de Almeida Alves (Fiocruz)


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