Fitoterapia

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Conceito Moderno da Fitoterapia

    Como toda a obra humana, a medicina tem sofrido através do tempo as mais diversas e extravagantes variações nos métodos de tratamento das doenças. Paralelamente a evolução dos conhecimentos humanos, particularmente no campo das ciências físico-químicas e da biologia, vem a medicina imprimindo modificações mais ou menos profundas e radicais nos sistemas de tratamento e nos agentes de cura utilizados: os medicamentos: Zooterapia, Fitoterapia, Homeoterapia, Vitamino terapia, etc. e até, ultimamente a hipotética Diapatia, sem que, todavia, seja conhecido com precisão o verdadeiro mecanismo de ação de tais elementos ou agentes de cura.

    Um sistema de tratamento no entretanto, vem resistindo galhardamente a todas as inovações terapêuticas, trazidas pelo progresso da civilização. A Fitoterapia, ou cura pelas plantas e seus produtos.

    Desde que o homem na sua marcha evolutiva, sentiu a primeira indisposição no organismo, ele teve a intuição ou a inspiração de que nas plantas poderia encontrar os meios de cura ou alívio.

    Por isto mesmo o emprego das plantas na medicina empírica data de épocas imemoriais, devendo ter naturalmente, principiado com o aparecimento dos primeiros homens, com ou sem raciocínio, por que ainda hoje se verifica que os animais ditos irracionais, também recorrem instintivamente às plantas, quando se sentem afetados de algum mal, ou agbrownidos por animais peçonhentos.

    Os animais e seus produtos, deram outrora à medicina, igualmente considerável contribuição, especialmente os insetos de toda a ordem, que tiveram o mais amplo emprego sob formas as mais diversas, como aliás, ainda se verifica nos nossos dias, nos medicamentos homeopatas cabendo lembrar aqui a organoterapia, até há pouco repudiada pela medicina oficial, no entanto praticada largamente na antigüidade.

    Enquanto porém, a cultura e a experiência dos homens foi demonstrando a ineficácia e mesmo os inconvenientes da utilização de animais e seus produtos, no tratamento das doenças, e, por isto mesmo foram lentamente eliminados do arsenal terapêutico, em sua quase totalidade, ao revés o emprego das plantas e seus produtos, aumentava dia a dia, e sua eficácia se acentuava e confirmava, ampliando o campo de ação nas diversas modalidades de doença.

    Desde a mais elementar forma de emprego das plantas medicinais, usadas na antigüidade, que eram os chamados "simples", mais tarde substituídos pelas espécies, até ao máximo do progresso atingido nos nossos dias, que são as formas farmacêuticas chamadas intratos, etratos, e energetenos, preparações galênicas da maior eficácia terapêutica, obtidas partindo de plantas estabilizadas ou seja, de plantas contendo todos os seus princípios ativos, inalteráveis, medeia largo lapso de tempo e variadíssimo e interessante tem sido a gradação no elevado objetivo que norteia os farmacologistas, que ao atingir à máxima perfeição, visando uma maior eficácia na humanitária arte de curar.

    Largo e incontestável é ainda hoje o contingente fornecido pelas plantas à medicina e à farmácia. A primeira fornece sob diversas formas, medicamentos de reconhecida ação específica para diversos estados mórbidos.

    Para a farmácia e a indústria, farmacêutica, constituem as plantas bases ou matérias primas para a preparação dos numerosos alcalóides naturais e sintéticos, glucósides, tanóides, bálsamos, resinas, gomas-resinas, essências, óleos e tantas outras substâncias utilizadas nesse importante ramo da indústria e que constitui hoje, a despeito da nossa desorientação econômica, ponderável fonte de renda para o país.

A Concorrência dos Produtos Químicos Sintéticos

    Desde o aparecimento do primeiro produto químico, obtido por síntese, a uréia, obtida por Wöhler no ano de 1826, largos horizontes se descortinaram à síntese orgânica, e o seu rápido e imenso progresso, tornou possível a organização de poderosas indústrias que tanto contribuíram para o bem da humanidade e a riqueza de muitos países. Hoje os produtos químicos sintéticos constituem o mais sério concorrente das plantas medicinais, de vez que, para a colocação dos milhares de produtos existentes, uma propaganda intensiva e pertinaz, é feita pelos respectivos fabricantes no sentido de terem em todo o mundo a preferência dos médicos.

    A indústria química trabalha ativamente para a obtenção de grande número de alcalóides e outros princípios ativos capazes de substituir os produtos naturais retirados das plantas. Se para alguns (cocaína, pilocarpina, cafeína, etc.), já se obtiveram resultados satisfatórios, para um grande número inúteis têm sido todos os esforços.

    À despeito dessa concorrência natural e inevitável, a nosso ver, as plantas medicinais têm conseguido sustentar sua importância e confiança na terapêutica contemporânea. Não obstante, verifica-se que a grande maioria dos nossos médicos clínicos, empolgados com a imensa variedade de produtos químicos para a cura de todas as enfermidades, e, talvez algo sugestionados pelos pomposos reclames, desdenham das plantas e suas preparações, considerando-as mesmo, alguns, destituídas das virtudes que lhes são atribuídas, embora na prática sempre se manifestem com segurança.

Sobre a Eficácia Terapêutica

dos Medicamentos de Origem Vegetal

    Mostra a experimentação clínica que  as preparações galênicas quando obtidas de plantas autênticas, e reunindo as condições exigidas pelos códigos farmacêuticos, apresentam sempre invariavelmente, a mesma eficácia terapêutica.

    Mostra ainda mais que, para as drogas de princípios ativos definidos, o emprego desses mesmos princípios, isoladamente não produz efeito idêntico ao que se produz quando se administra a droga total. A quinina não possue ação rigorosamente igual à da casca de quina ou suas preparações farmacêuticas diversas; a digitalina possue manifestação diferente da digital; a  cafeína ou guaranina, princípio considerado ativo do guaraná, possui ação farmacodinâmica consideravelmente diferente da droga em natureza o que está sobejamente confirmado na prática médica; o mesmo se verificando com a noz de cola e outros vegetais.

    Diante de tais fatos forçoso é concluir que na droga integral, não somente os princípios considerados ativos, possuem ação especifica; o conjunto dos componentes apresenta uma ação muitas vezes bem diversa daquela dos respectivos princípios ativos.

    Daí a tendência moderna do emprego, de preferência, de preparações farmacêuticas, reunindo o conjunto dos princípios ativos ou úteis dos diversos vegetais, como para exemplo podem ser citados o pantopon, a totaquina, a digifolina, representando tais preparações em toda a sua atividade o complexo das respectivas drogas tal como nelas se encontram de início, mas expurgadas das substâncias inúteis ou irritantes que as acompanham, o que representa sem dúvida, notável progresso de farmacotécnica e uma demonstração decisiva da colaboração do farmacêutico na difícil ciência de curar.

    Dentro dessa ordem de considerações ocorre naturalmente indagar, como atuarão as plantas ou suas preparações no organismo doente? Agirão somente os princípios definidos que encerram muitas delas ou atuarão pelo complexo coloidal que as constituem?

    O estudo químico analítico de numerosas plantas e seus efeitos terapêuticos constatados na prática médica parece conduzir à convicção de que os efeitos observados nas diversas doenças devem ser mais atribuíveis aos complexos que representam do que propriamente aos princípios que contêm.

    Na verdade um grande número de plantas nas quais a análise química rigorosa não revela nenhum principio ativo ou definido, a que se possa atribuir tal ou qual efeito que manifestam, são no entanto de ação eficaz e constante no tratamento de diversos estados mórbidos.

    Outras possuem princípios definidos que não correspondem aos efeitos terapêuticos que lhe são próprios.

    É o caso do guaraná e da noz de cola, já referidos, cujos efeitos não podem ser atribuídos à cafeína que  encerram, porque esse derivado da xantina empregado isoladamente, não possui a ação curativa das citadas drogas.

    As folhas do abacateiro, (Persea americana) possuem ação diurética notável e bem conhecida sem que todavia, de sua composição química bem estudada, se possa concluir qual dos seus componentes possui tal ação; da mesma maneira os estigmas de milho, mate, raízes aperientes, etc. também largamente empregados como preciosos diuréticos.

    Grande número de plantas medicinais indígenas ainda inteiramente desconhecidas na sua composição química por falta de interesse dos nossos dirigentes e por deficiência do nosso ensino prático, são no entanto largamente empregadas pelo povo, com os mais surpreendentes resultados no tratamento e curas de diversas doenças. Algumas delas de composição química já bem conhecida, insistimos, manifestam propriedades terapêuticas que não podem ser atribuídas somente aos princípios ativos que nelas se encontram.

    Em muitas a química não conseguiu determinar mais do que tanóides, gomas, resinas, mucilagens, matérias corantes, e sais comuns, substâncias estas que, à exceção dos tanóides em certos casos não poderão ser responsabilizados pelos efeitos seguros e constantes, manifestados em seu emprego.

    Todos esses fatos vêm de algum modo reforçar o conceito moderno da ação dos complexos vegetais, como os verdadeiros agentes curativos na fitoterapia.

Qual Seria o Mecanismo de Ação

dos Vegetais como Agentes Terapêuticos?

    Como para os produtos químicos em geral, não se conhece bem o mecanismo de ação dos medicamentos vegetais no organismo, isto é, a ação íntima que exercem sob as células, tecidos ou órgãos, combatendo ou anulando as manifestações mórbidas. Todavia, parece fora de dúvida que o mecanismo de ação dos produtos químicos deve ser bem diferente do das drogas vegetais. Enquanto que os agentes químicos atuariam provavelmente, produzindo oxidações, brownuções, hidratações ou desidratações, neutralizações, absorções, adsorsões, etc., as drogas vegetais agiriam modificando as condições físico-químicas do meio interno, como por exemplo, modificando a viscosidade do sangue, facilitando assim as trocas através das membranas celulares; modificando o pH, enfim promovendo ou facilitando a eliminação de toxinas e resíduos do metabolismo animal, possivelmente responsáveis pelos diversos estados mórbidos não específicos.

    Nesta provável interpretação do modo de agir das plantas medicinais, reside a explicação talvez  dos seus admiráveis efeitos, a ponto de dizer-se que não curam, fazem milagres.

    Assim se explicaria também o grande consumo pelo povo em geral, com reais sucessos e a preferência que têm para alguns médicos sobre os produtos químicos diversos, via  de regra irritantes ou deprimentes, acarretando assim o seu uso prolongado graves conseqüências, o que, absolutamente não se verifica com o emprego das drogas vegetais a não ser certas heróicas quando haja exagero na posologia.

    É diante de tais observações que estamos retornando às épocas remotas do emprego dos simples ou sejam as espécies, que não são mais do que misturas de plantas diversas ou suas partes em natureza, apenas dessecadas à sombra conservando assim integralmente todos os seus componentes, em conjunto, ótimo, para a ação terapêutica própria. É ainda a razão de ser do ressurgimento, não só no nosso país, mas em todo o mundo civilizado dos chamados chás, sob denominações comerciais diversas que nada mais são do que as espécies já mencionadas, ou seja a utilização prática da droga integral com toda a sua força medicamentosa.

    A propósito, conhecemos o caso de uma pessoa idosa achacada de reumatismo articular crônico, e que cansada de tomar diversos medicamentos químicos, passou a usar por conselho de pessoa leiga, mate em abundância. Diariamente no almoço e no jantar, toma um copo ordinário de infuso da nossa erva-mate, tendo o reumatismo desaparecido completamente após dois meses de uso, sem que tivesse tomado concomitantemente outro qualquer medicamento.

    Como explicar um tal resultado tratando-se de uma planta cuja composição química bem conhecida, não permite admitir tal efeito?

    Será que algum princípio do mate ainda mal estudado possua esse efeito? Em novas análises procedidas ultimamente na erva-mate, segundo se lê na Semana Médica, nº 53, de 31-12-1936, foi constatada a presença de notável quantidade de ácido ascórbico (Vitamina C). Será que esta vitamina além das inúmeras virtudes terapêuticas que lhe são atribuídas ultimamente, tenha também ação sobre o reumatismo?

    Seria interessante estudos e observações nesse sentido.

    Não admite a medicina oficial a ação anti-luética, para as plantas diversas conhecidas popularmente como depurativas do sangue. No entretanto, ao que se afirma são sem conta os casos de cura das manifestações sifilíticas com tais plantas que constituem providencialmente, a terapêutica mais acessível ao nosso abandonado sertanejo, aos pobres em geral.

    Quem não conhece no sertão as famosas plantas, taiuiá, azougue dos pobres, salsaparrilha, caroba, suma-roxa! A ação terapêutica de tais plantas sobre as manifestações sifilíticas, sobretudo da pele, não admitem mais dúvidas, tão freqüentes são os casos de curas, atribuídos, somente ao seu emprego, isoladamente, ou em ação sinérgica.

    Não raros são os casos de cura completa de blenorragia aguda e crônica, somente com o uso de determinadas plantas, em casos em que já se haviam esgotados todos os recursos da quimioterapia e vacinoterapia.

    A espinheira santa (Maytenus ilicifolia) tem efetuado a cura de casos de úlcera do estômago, confirmado por clínicos da maior reputação. Os brilhantes efeitos no tratamento de certas afecções do sistema nervoso, obtidos com a nossa cainca, preconizada pelo eminente professor Henrique Roxo e oportunamente comunicado a esta Academia merece ser citado.

    Os fatos poderiam ser enumerados  sem limite, mas bastam estes para demonstrar à Academia a importância do assunto.

    Os progressos realizados no campo da fitoterapia em todo o mundo civilizado é uma resultante natural e inevitável da amplitude de conhecimentos que o homem tem podido adquirir no campo da química, da física e da fisiologia e da biologia, embora, na verdade ainda restem muitos pontos obscuros a esclarecer.

    Voltando ao uso dos simples tal como o praticavam os nossos antepassados, não o fazemos apenas como mera imitação empírica, e sim pela conclusão a que nos levaram a observação dos fatos, esteados nos conhecimentos da época, como sejam, a descoberta dos complexos, e conhecimentos dos seus desdobramentos, a ação de fermentos e oxidases e tantos outros que vieram abrir novos horizontes à farmácia e ampliar os recursos da terapêutica.

    A tendência atual em todos os grandes centros, é pois, o emprego das plantas medicinais, ou suas partes em natureza, sem que tenham passado por qualquer manipulação farmacêutica. Admite-se que em tal condição possam ser utilizados os princípios úteis totais que encerram, o complexo orgânico ativo em sua integridade. Daí o emprego de preferência dos chás, que correspondem como foi dito às espécies conjunto de partes vegetais, apenas fragmentadas e misturadas, que por fornecerem na prática maior eficácia curativa, vão tendo notável preferência do público e mesmo de alguns médicos especializados no tratamento pelas plantas.

    Referindo-se às plantas medicinais estabilizadas, Emil Perrot em sua importante conferência realizada na sociedade de Estudos Médicos de Valença (Espanha) em 1930, sob o título "Fitoterapia e Fitoquímica", há um trecho que merece ser transcrito aqui  pelas relações que apresenta com as considerações que vimos fazendo. Com efeito, diz Perrot, "é precisamente o fato de se ter conseguido separar os elementos inúteis dos princípios ativos mais ou menos complexos dos vegetais, ao lado da diferença muitas vezes notável entre a ação terapêutica duma planta fresca e dos princípios químicos isolados, que despertam a atenção dos médicos de certo tempo a esta parte, e permite uma certa renovação à medicação natural pela planta, consagrada a maior parte do tempo por uma tradição multi-milenar".

    "A medicina foi e deve ser a arte de curar; para atingir esse objectivo, recorrer a todos os agentes, unir se preciso fôr, os dados da ciência aos do empirismo e criar o que o professor Penon, chamou o empirismo científico".

    "A terapêutica atual entrou nesse caminho e pratica o mais amplo ecletismo; ao lado das conquistas as mais recentes da química, da bacteriologia, da opoterapia, radioterapia, ela não abandonou ainda inteiramente as doutrinas dos velhos simplicistas. Separando um bom número de casos, aquilo que não é mais do que lenda, ela realça o valor da medicina vegetal. É que com efeito a fitoterapia possui em seu arsenal, grande variedade de agentes ativos, e mesmo heróicos, que não se pode ainda substituir! A digital, o centeio espigado, a beladona, o suco de papoula, a valeriana e tantos outros".

    "Fazei uma mistura dos alcalóides do ópio. Obtereis a ação medicamentosa da droga? Na mesma ordem de idéias, pode-se fabricar pão com glúten e uma mistura de amido de trigo, ou fazer vinho com uma mistura encerrando álcool, tanino, ácido tartárico e uma matéria corante? A resposta é evidentemente negativa".

    "É que, em química, como disse o grande químico Le Bon, em sua magnífica obra sobre a evolução da matéria, do mesmo modo que em arquitetura, a forma do edifício tem uma importância muito maior do que as dos materiais que o constituem".

    "A planta sabe fabricar com composto pouco complicados, tais como a água e o ácido carbônico, edifícios moleculares oxidáveis muito complicados, carregados de energia. Com a energia de pouca tensão que a envolve, ela fabrica pois a energia de alta tensão"

    "Em outra ocasião também o professor Widal, afirmou a superioridade do simples ou medicamento galênico, complexo natural organizado, sobre o elemento parcelar que se extraiu e que não é mais do que uma espécie de caput mortem, igualmente limitado em sua constituição e em seus efeitos".

    "Em suma, os mais notáveis terapêutas confirmaram a opinião que o professor G. Puchet em sua lição inaugural, no ano de 1897, havia emitido".

    "Que há na composição imediata das drogas simples, elementos ativos cujo conhecimento nos escapam ainda e cuja importância é atestável pelos fatos cada dia mais numerosos".

    O valor e a eficácia terapêutica das nossas plantas medicinais, é proverbial e decantado por toda a parte, o que bem exprime o conhecido conceito do  notável botânico Martius, já por nós referido de que as plantas brasileiras não curam, fazem milagres!

    Freire Allemão, notável botânico brasileiro, antigo membro desta Academia, entusiasta da nossa Flora Medicinal, já perguntava naquela época: "e porque não empregam no Brasil, as plantas medicinais da terra?!"

    Tempo houve em que no país, um grupo de estudiosos já considerável na época, vinha cuidando com certo entusiasmo desse interessante assunto.

    Era no tempo em que havia nos cursos de medicina a cadeira de matéria médica, hoje substituída pela cadeira de farmacologia. As plantas medicinais eram em grande parte estudadas e introduzidas na medicina como provam alguns trabalhos publicados entre nós, dos quais lembramos alguns: "Lição de Matéria Médica Brasileira" pelo professor João José de Carvalho; "Estudos de Matéria Matéria Médica Brasileira de Origem Vegetal" de autoria do Dr. Mello Oliveira, que foi membro desta Academia. "Flora Médica Brasiliense" de autoria do Dr. Alfbrowno da Matta, notável clínico da cidade de São Luís do Maranhão e, atualmente, representante do seu Estado, no Senado Federal.

    Importantes outros trabalhos, esparsos  sobre plantas medicinais, como os do Dr. Felicio dos Santos,   Miranda Azevedo, Vieira de Mattos, que isolou o vieirino da quina mineira;  João Baptista de Lacerda, João Manoel da Costa, Barbosa Rodrigues, Joaquim de Almeida Pinto e ultimamente Oswaldo Peckolt, Oswaldo Costa, Jayme Cruz e outros.

    Infelizmente a substituição da cadeira com orientação didática e prática bem diversa de um  lado; por outro lado a invasão rápida dos produtos químicos do arsenal terapêutico, pode-se dizer que alijaram quase inteiramente da medicina oficial as plantas, daí os desinteresses completos para a sua  utilização e consequentemente o abandono do seu estudo  e  aproveitamento industrial.

    As modernas gerações de médicos, não acbrownitam ou duvidam da ação medicamentosa das plantas  em geral, embora não desconheçam que os princípios ativos de muitas delas são diariamente usadas com  completo êxito.

    Já ouvimos a declaração de  um dos nossos mais acatados professores de farmacologia que, a não ser raras plantas, como a digital, ipeca, quina  e  poucas outras, as plantas utilizadas em medicina são absolutamente inúteis! . . .

    São razões fortes para explicar a má vontade se não o repúdio injusto que em nosso país encontram as plantas medicinais, por parte da medicina oficial.

    Assim assistimos a esse triste contraste: enquanto o emprego empírico entre o povo aumenta dia a dia, mostrando a eficácia  na cura de diversas    enfermidades, a medícina oficial se desinteressa ou repudia esses mesmos agentes terapêuticos.

    Enquanto vemos aumentar e justificar nos países estrangeiros o emprego e os efeitos terapêuticos das plantas, após provas e demonstrações decisivas, no Brasil a medicina oficial permanece parte indiferente à importante matéria e parte hostilizando o seu emprego como recurso terapêutico.

    Essa maneira errônea e impatriótica de considerar as plantas medicinais, se tem feito refletir de modo altamente prejudicial à sua expansão industrial, acarretando o desânimo àqueles que com visão mais larga, vêm empregando vultosos capitais na cultura e industrialização de numerosas das nossas plantas indígenas medicinais.

    Entre os raros médicos, que entre nós vêm preconizando francamente a fitoterapia, justo é que seja destacado, com o nosso entusiasmo, o eminente professor Dr. Henrique Roxo, membro conspícuo desta casa, que em sua vasta clínica vem dando expansão às  plantas medicinais indígenas, e, ao que parece, com os mais animadores resultados.

    Pena é, Sr. Presidente, que sua Senhoria não tenha conseguido até agora fazer adeptos a essa utilíssima terapêutica.

    Entre as diversas formas farmacêuticas em que podem ser administradas as plantas medicinais: tinturas, alcoolaturas, infusos, decoctos, extratos, intratos, abstratos, etc., a mais simples e cômoda é sem duvida o extrato fluido.

    O extrato fluido amplamente industrializado em nosso país, é uma preparação farmacêutica racional, perfeitamente estável, encerrando em um resumido volume, peso , igual de planta dessecada ao ar; ele contém todos os princípios úteis e integrais da planta, pronto para emprego imediato, substituindo assim a própria planta, por isto mesmo são denominados extratos a peso igual da planta.

    Empregar o extrato fluido equivale pois a empregar a própria planta.

    Esta é mesmo a forma preferida pelo professor Henrique Roxo, no seu receituário ordinário.

    Sr. Presidente: trazendo à Academia, a focalização, deste assunto, temos em mira, despertar para ele a atenção e o interesse dos senhores médicos clínicos, não só salientando o importante e cada vez mais valoroso recurso terapêutico, que representam as plantas, reconhecido em todos os países cultos, como também para mostrar a necessidade que tem o corpo médico brasileiro, de estimular e animar uma das mais futurosas fontes de renda para o País, que é o cultivo intensivo e a industrialização das plantas medicinais indígenas.

    O inolvidável autor da nossa primeira farmacopéia, farmacêutico Rodolpho Albino, deu à forma extrato fluido, o mais amplo desenvolvimento na preparação de numerosas formas nela consignadas, o que já permite uma larga expansão das nossas plantas e com grandes vantagens de economia e de tempo na oficina farmacêutica.

    É necessário  que a mesma expansão seja dada pelos médicos do país em suas clínicas. Não desconhecemos que na hora que passa os médicos clínicos procuram evitar o formulário, limitando-se a prescrever medicamentos industrializados, embora talvez sem se aperceberem que vêm contribuindo dia a dia, para o seu próprio mal e de sua classe, tornando com o quase exclusivo emprego das especialidades farmacêuticas o sacerdócio respeitável da medicina e a prescrição dos medicamentos acessíveis a toda a gente, contribuindo assim para uma maior invasão do charlatanismo médico que campeia livremente no país.

    Todavia, julgamos que pelo menos nos hospitais e organizações sanitárias outras para indigentes ou pessoas de poucos recursos, poder-se-iam utitizar as plantas como base de medicamento, quando mais não fosse, ao menos tendo em vista, as vantagens econômicas para essas instituições.

    Um meio que talvez fosse eficaz para criar um ambiente mais favorável ao emprego das plantas medicinais, seria a sua introdução sistemática nas clínicas hospitalares, sob a forma de extratos fluidos, puros ou em poções.

    Deste modo além de permitirem a convicção do efeito ante os resultados verificados nos doentes, tornaria os futuros médicos familiarizados com o emprego das plantas por muitos motivos preferível aos produtos químicos hoje largamente empregados.

    Medida complementar talvez aconselhável no caso, seria a volta do ensino da matéria médica vegetal nas Escolas de Medicina do País.


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