Fitoterapia
Conceito Moderno da Fitoterapia
Virgilio Lucas
Lido em sessão da Academia Nacional de Medicina em 23/09/1937 pelo
acadêmico farmacêutico Virgilio Lucas.
Senhor Presidente
Senhores Acadêmicos
Como toda a obra humana, a medicina tem sofrido através
do tempo as mais diversas e extravagantes variações nos métodos
de tratamento das doenças. Paralelamente a evolução
dos conhecimentos humanos, particularmente no campo das ciências
físico-químicas e da biologia, vem a medicina imprimindo
modificações mais ou menos profundas e radicais nos sistemas
de tratamento e nos agentes de cura utilizados: os medicamentos: Zooterapia,
Fitoterapia, Homeoterapia, Vitamino terapia, etc. e até, ultimamente
a hipotética Diapatia, sem que, todavia, seja conhecido com precisão
o verdadeiro mecanismo de ação de tais elementos ou agentes
de cura.
Um sistema de tratamento no entretanto, vem resistindo
galhardamente a todas as inovações terapêuticas, trazidas
pelo progresso da civilização. A Fitoterapia, ou cura pelas
plantas e seus produtos.
Desde que o homem na sua marcha evolutiva, sentiu a
primeira indisposição no organismo, ele teve a intuição
ou a inspiração de que nas plantas poderia encontrar os meios
de cura ou alívio.
Por isto mesmo o emprego das plantas na medicina empírica
data de épocas imemoriais, devendo ter naturalmente, principiado
com o aparecimento dos primeiros homens, com ou sem raciocínio,
por que ainda hoje se verifica que os animais ditos irracionais, também
recorrem instintivamente às plantas, quando se sentem afetados de
algum mal, ou agbrownidos por animais peçonhentos.
Os animais e seus produtos, deram outrora à medicina,
igualmente considerável contribuição, especialmente
os insetos de toda a ordem, que tiveram o mais amplo emprego sob formas
as mais diversas, como aliás, ainda se verifica nos nossos dias,
nos medicamentos homeopatas cabendo lembrar aqui a organoterapia, até
há pouco repudiada pela medicina oficial, no entanto praticada largamente
na antigüidade.
Enquanto porém, a cultura e a experiência
dos homens foi demonstrando a ineficácia e mesmo os inconvenientes
da utilização de animais e seus produtos, no tratamento das
doenças, e, por isto mesmo foram lentamente eliminados do arsenal
terapêutico, em sua quase totalidade, ao revés o emprego das
plantas e seus produtos, aumentava dia a dia, e sua eficácia se
acentuava e confirmava, ampliando o campo de ação nas diversas
modalidades de doença.
Desde a mais elementar forma de emprego das plantas
medicinais, usadas na antigüidade, que eram os chamados "simples",
mais tarde substituídos pelas espécies, até ao máximo
do progresso atingido nos nossos dias, que são as formas farmacêuticas
chamadas intratos, etratos, e energetenos, preparações galênicas
da maior eficácia terapêutica, obtidas partindo de plantas
estabilizadas ou seja, de plantas contendo todos os seus princípios
ativos, inalteráveis, medeia largo lapso de tempo e variadíssimo
e interessante tem sido a gradação no elevado objetivo que
norteia os farmacologistas, que ao atingir à máxima perfeição,
visando uma maior eficácia na humanitária arte de curar.
Largo e incontestável é ainda hoje o contingente
fornecido pelas plantas à medicina e à farmácia. A
primeira fornece sob diversas formas, medicamentos de reconhecida ação
específica para diversos estados mórbidos.
Para a farmácia e a indústria, farmacêutica,
constituem as plantas bases ou matérias primas para a preparação
dos numerosos alcalóides naturais e sintéticos, glucósides,
tanóides, bálsamos, resinas, gomas-resinas, essências,
óleos e tantas outras substâncias utilizadas nesse importante
ramo da indústria e que constitui hoje, a despeito da nossa desorientação
econômica, ponderável fonte de renda para o país.
A Concorrência dos Produtos Químicos
Sintéticos
Desde o aparecimento do primeiro produto químico,
obtido por síntese, a uréia, obtida por Wöhler no ano
de 1826, largos horizontes se descortinaram à síntese orgânica,
e o seu rápido e imenso progresso, tornou possível a organização
de poderosas indústrias que tanto contribuíram para o bem
da humanidade e a riqueza de muitos países. Hoje os produtos químicos
sintéticos constituem o mais sério concorrente das plantas
medicinais, de vez que, para a colocação dos milhares de
produtos existentes, uma propaganda intensiva e pertinaz, é feita
pelos respectivos fabricantes no sentido de terem em todo o mundo a preferência
dos médicos.
A indústria química trabalha ativamente
para a obtenção de grande número de alcalóides
e outros princípios ativos capazes de substituir os produtos naturais
retirados das plantas. Se para alguns (cocaína, pilocarpina, cafeína,
etc.), já se obtiveram resultados satisfatórios, para um
grande número inúteis têm sido todos os esforços.
À despeito dessa concorrência natural e
inevitável, a nosso ver, as plantas medicinais têm conseguido
sustentar sua importância e confiança na terapêutica
contemporânea. Não obstante, verifica-se que a grande maioria
dos nossos médicos clínicos, empolgados com a imensa variedade
de produtos químicos para a cura de todas as enfermidades, e, talvez
algo sugestionados pelos pomposos reclames, desdenham das plantas e suas
preparações, considerando-as mesmo, alguns, destituídas
das virtudes que lhes são atribuídas, embora na prática
sempre se manifestem com segurança.
Sobre a Eficácia Terapêutica
dos Medicamentos de Origem Vegetal
Mostra a experimentação clínica
que as preparações galênicas quando obtidas de
plantas autênticas, e reunindo as condições exigidas
pelos códigos farmacêuticos, apresentam sempre invariavelmente,
a mesma eficácia terapêutica.
Mostra ainda mais que, para as drogas de princípios
ativos definidos, o emprego desses mesmos princípios, isoladamente
não produz efeito idêntico ao que se produz quando se administra
a droga total. A quinina não possue ação rigorosamente
igual à da casca de quina ou suas preparações farmacêuticas
diversas; a digitalina possue manifestação diferente da digital;
a cafeína ou guaranina, princípio considerado ativo
do guaraná, possui ação farmacodinâmica consideravelmente
diferente da droga em natureza o que está sobejamente confirmado
na prática médica; o mesmo se verificando com a noz de cola
e outros vegetais.
Diante de tais fatos forçoso é concluir
que na droga integral, não somente os princípios considerados
ativos, possuem ação especifica; o conjunto dos componentes
apresenta uma ação muitas vezes bem diversa daquela dos respectivos
princípios ativos.
Daí a tendência moderna do emprego, de
preferência, de preparações farmacêuticas, reunindo
o conjunto dos princípios ativos ou úteis dos diversos vegetais,
como para exemplo podem ser citados o pantopon, a totaquina, a digifolina,
representando tais preparações em toda a sua atividade o
complexo das respectivas drogas tal como nelas se encontram de início,
mas expurgadas das substâncias inúteis ou irritantes que as
acompanham, o que representa sem dúvida, notável progresso
de farmacotécnica e uma demonstração decisiva da colaboração
do farmacêutico na difícil ciência de curar.
Dentro dessa ordem de considerações ocorre
naturalmente indagar, como atuarão as plantas ou suas preparações
no organismo doente? Agirão somente os princípios definidos
que encerram muitas delas ou atuarão pelo complexo coloidal que
as constituem?
O estudo químico analítico de numerosas
plantas e seus efeitos terapêuticos constatados na prática
médica parece conduzir à convicção de que os
efeitos observados nas diversas doenças devem ser mais atribuíveis
aos complexos que representam do que propriamente aos princípios
que contêm.
Na verdade um grande número de plantas nas quais
a análise química rigorosa não revela nenhum principio
ativo ou definido, a que se possa atribuir tal ou qual efeito que manifestam,
são no entanto de ação eficaz e constante no tratamento
de diversos estados mórbidos.
Outras possuem princípios definidos que não
correspondem aos efeitos terapêuticos que lhe são próprios.
É o caso do guaraná e da noz de cola,
já referidos, cujos efeitos não podem ser atribuídos
à cafeína que encerram, porque esse derivado da xantina
empregado isoladamente, não possui a ação curativa
das citadas drogas.
As folhas do abacateiro, (Persea americana) possuem
ação diurética notável e bem conhecida sem
que todavia, de sua composição química bem estudada,
se possa concluir qual dos seus componentes possui tal ação;
da mesma maneira os estigmas de milho, mate, raízes aperientes,
etc. também largamente empregados como preciosos diuréticos.
Grande número de plantas medicinais indígenas
ainda inteiramente desconhecidas na sua composição química
por falta de interesse dos nossos dirigentes e por deficiência do
nosso ensino prático, são no entanto largamente empregadas
pelo povo, com os mais surpreendentes resultados no tratamento e curas
de diversas doenças. Algumas delas de composição química
já bem conhecida, insistimos, manifestam propriedades terapêuticas
que não podem ser atribuídas somente aos princípios
ativos que nelas se encontram.
Em muitas a química não conseguiu determinar
mais do que tanóides, gomas, resinas, mucilagens, matérias
corantes, e sais comuns, substâncias estas que, à exceção
dos tanóides em certos casos não poderão ser responsabilizados
pelos efeitos seguros e constantes, manifestados em seu emprego.
Todos esses fatos vêm de algum modo reforçar
o conceito moderno da ação dos complexos vegetais, como os
verdadeiros agentes curativos na fitoterapia.
Qual Seria o Mecanismo de Ação
dos Vegetais como Agentes Terapêuticos?
Como para os produtos químicos em geral, não
se conhece bem o mecanismo de ação dos medicamentos vegetais
no organismo, isto é, a ação íntima que exercem
sob as células, tecidos ou órgãos, combatendo ou anulando
as manifestações mórbidas. Todavia, parece fora de
dúvida que o mecanismo de ação dos produtos químicos
deve ser bem diferente do das drogas vegetais. Enquanto que os agentes
químicos atuariam provavelmente, produzindo oxidações,
brownuções, hidratações ou desidratações,
neutralizações, absorções, adsorsões,
etc., as drogas vegetais agiriam modificando as condições
físico-químicas do meio interno, como por exemplo, modificando
a viscosidade do sangue, facilitando assim as trocas através das
membranas celulares; modificando o pH, enfim promovendo ou facilitando
a eliminação de toxinas e resíduos do metabolismo
animal, possivelmente responsáveis pelos diversos estados mórbidos
não específicos.
Nesta provável interpretação do
modo de agir das plantas medicinais, reside a explicação
talvez dos seus admiráveis efeitos, a ponto de dizer-se que
não curam, fazem milagres.
Assim se explicaria também o grande consumo pelo
povo em geral, com reais sucessos e a preferência que têm para
alguns médicos sobre os produtos químicos diversos, via
de regra irritantes ou deprimentes, acarretando assim o seu uso prolongado
graves conseqüências, o que, absolutamente não se verifica
com o emprego das drogas vegetais a não ser certas heróicas
quando haja exagero na posologia.
É diante de tais observações que
estamos retornando às épocas remotas do emprego dos simples
ou sejam as espécies, que não são mais do que misturas
de plantas diversas ou suas partes em natureza, apenas dessecadas à
sombra conservando assim integralmente todos os seus componentes, em conjunto,
ótimo, para a ação terapêutica própria.
É ainda a razão de ser do ressurgimento, não só
no nosso país, mas em todo o mundo civilizado dos chamados chás,
sob denominações comerciais diversas que nada mais são
do que as espécies já mencionadas, ou seja a utilização
prática da droga integral com toda a sua força medicamentosa.
A propósito, conhecemos o caso de uma pessoa
idosa achacada de reumatismo articular crônico, e que cansada de
tomar diversos medicamentos químicos, passou a usar por conselho
de pessoa leiga, mate em abundância. Diariamente no almoço
e no jantar, toma um copo ordinário de infuso da nossa erva-mate,
tendo o reumatismo desaparecido completamente após dois meses de
uso, sem que tivesse tomado concomitantemente outro qualquer medicamento.
Como explicar um tal resultado tratando-se de uma planta
cuja composição química bem conhecida, não
permite admitir tal efeito?
Será que algum princípio do mate ainda
mal estudado possua esse efeito? Em novas análises procedidas ultimamente
na erva-mate, segundo se lê na Semana Médica, nº 53,
de 31-12-1936, foi constatada a presença de notável quantidade
de ácido ascórbico (Vitamina C). Será que esta vitamina
além das inúmeras virtudes terapêuticas que lhe são
atribuídas ultimamente, tenha também ação sobre
o reumatismo?
Seria interessante estudos e observações
nesse sentido.
Não admite a medicina oficial a ação
anti-luética, para as plantas diversas conhecidas popularmente como
depurativas do sangue. No entretanto, ao que se afirma são sem conta
os casos de cura das manifestações sifilíticas com
tais plantas que constituem providencialmente, a terapêutica mais
acessível ao nosso abandonado sertanejo, aos pobres em geral.
Quem não conhece no sertão as famosas
plantas, taiuiá, azougue dos pobres, salsaparrilha, caroba, suma-roxa!
A ação terapêutica de tais plantas sobre as manifestações
sifilíticas, sobretudo da pele, não admitem mais dúvidas,
tão freqüentes são os casos de curas, atribuídos,
somente ao seu emprego, isoladamente, ou em ação sinérgica.
Não raros são os casos de cura completa
de blenorragia aguda e crônica, somente com o uso de determinadas
plantas, em casos em que já se haviam esgotados todos os recursos
da quimioterapia e vacinoterapia.
A espinheira santa (Maytenus ilicifolia) tem efetuado
a cura de casos de úlcera do estômago, confirmado por clínicos
da maior reputação. Os brilhantes efeitos no tratamento de
certas afecções do sistema nervoso, obtidos com a nossa cainca,
preconizada pelo eminente professor Henrique Roxo e oportunamente comunicado
a esta Academia merece ser citado.
Os fatos poderiam ser enumerados sem limite, mas
bastam estes para demonstrar à Academia a importância do assunto.
Os progressos realizados no campo da fitoterapia em
todo o mundo civilizado é uma resultante natural e inevitável
da amplitude de conhecimentos que o homem tem podido adquirir no campo
da química, da física e da fisiologia e da biologia, embora,
na verdade ainda restem muitos pontos obscuros a esclarecer.
Voltando ao uso dos simples tal como o praticavam os
nossos antepassados, não o fazemos apenas como mera imitação
empírica, e sim pela conclusão a que nos levaram a observação
dos fatos, esteados nos conhecimentos da época, como sejam, a descoberta
dos complexos, e conhecimentos dos seus desdobramentos, a ação
de fermentos e oxidases e tantos outros que vieram abrir novos horizontes
à farmácia e ampliar os recursos da terapêutica.
A tendência atual em todos os grandes centros,
é pois, o emprego das plantas medicinais, ou suas partes em natureza,
sem que tenham passado por qualquer manipulação farmacêutica.
Admite-se que em tal condição possam ser utilizados os princípios
úteis totais que encerram, o complexo orgânico ativo em sua
integridade. Daí o emprego de preferência dos chás,
que correspondem como foi dito às espécies conjunto de partes
vegetais, apenas fragmentadas e misturadas, que por fornecerem na prática
maior eficácia curativa, vão tendo notável preferência
do público e mesmo de alguns médicos especializados no tratamento
pelas plantas.
Referindo-se às plantas medicinais estabilizadas,
Emil Perrot em sua importante conferência realizada na sociedade
de Estudos Médicos de Valença (Espanha) em 1930, sob o título
"Fitoterapia e Fitoquímica", há um trecho que merece ser
transcrito aqui pelas relações que apresenta com as
considerações que vimos fazendo. Com efeito, diz Perrot,
"é precisamente o fato de se ter conseguido separar os elementos
inúteis dos princípios ativos mais ou menos complexos dos
vegetais, ao lado da diferença muitas vezes notável entre
a ação terapêutica duma planta fresca e dos princípios
químicos isolados, que despertam a atenção dos médicos
de certo tempo a esta parte, e permite uma certa renovação
à medicação natural pela planta, consagrada a maior
parte do tempo por uma tradição multi-milenar".
"A medicina foi e deve ser a arte de curar; para atingir
esse objectivo, recorrer a todos os agentes, unir se preciso fôr,
os dados da ciência aos do empirismo e criar o que o professor Penon,
chamou o empirismo científico".
"A terapêutica atual entrou nesse caminho e pratica
o mais amplo ecletismo; ao lado das conquistas as mais recentes da química,
da bacteriologia, da opoterapia, radioterapia, ela não abandonou
ainda inteiramente as doutrinas dos velhos simplicistas. Separando um bom
número de casos, aquilo que não é mais do que lenda,
ela realça o valor da medicina vegetal. É que com efeito
a fitoterapia possui em seu arsenal, grande variedade de agentes ativos,
e mesmo heróicos, que não se pode ainda substituir! A digital,
o centeio espigado, a beladona, o suco de papoula, a valeriana e tantos
outros".
"Fazei uma mistura dos alcalóides do ópio.
Obtereis a ação medicamentosa da droga? Na mesma ordem de
idéias, pode-se fabricar pão com glúten e uma mistura
de amido de trigo, ou fazer vinho com uma mistura encerrando álcool,
tanino, ácido tartárico e uma matéria corante? A resposta
é evidentemente negativa".
"É que, em química, como disse o grande
químico Le Bon, em sua magnífica obra sobre a evolução
da matéria, do mesmo modo que em arquitetura, a forma do edifício
tem uma importância muito maior do que as dos materiais que o constituem".
"A planta sabe fabricar com composto pouco complicados,
tais como a água e o ácido carbônico, edifícios
moleculares oxidáveis muito complicados, carregados de energia.
Com a energia de pouca tensão que a envolve, ela fabrica pois a
energia de alta tensão"
"Em outra ocasião também o professor Widal,
afirmou a superioridade do simples ou medicamento galênico, complexo
natural organizado, sobre o elemento parcelar que se extraiu e que não
é mais do que uma espécie de caput mortem, igualmente
limitado em sua constituição e em seus efeitos".
"Em suma, os mais notáveis terapêutas confirmaram
a opinião que o professor G. Puchet em sua lição inaugural,
no ano de 1897, havia emitido".
"Que há na composição imediata
das drogas simples, elementos ativos cujo conhecimento nos escapam ainda
e cuja importância é atestável pelos fatos cada dia
mais numerosos".
O valor e a eficácia terapêutica das nossas
plantas medicinais, é proverbial e decantado por toda a parte, o
que bem exprime o conhecido conceito do notável botânico
Martius, já por nós referido de que as plantas brasileiras
não curam, fazem milagres!
Freire Allemão, notável botânico
brasileiro, antigo membro desta Academia, entusiasta da nossa Flora Medicinal,
já perguntava naquela época: "e porque não empregam
no Brasil, as plantas medicinais da terra?!"
Tempo houve em que no país, um grupo de estudiosos
já considerável na época, vinha cuidando com certo
entusiasmo desse interessante assunto.
Era no tempo em que havia nos cursos de medicina a cadeira
de matéria médica, hoje substituída pela cadeira de
farmacologia. As plantas medicinais eram em grande parte estudadas e introduzidas
na medicina como provam alguns trabalhos publicados entre nós, dos
quais lembramos alguns: "Lição de Matéria Médica
Brasileira" pelo professor João José de Carvalho; "Estudos
de Matéria Matéria Médica Brasileira de Origem Vegetal"
de autoria do Dr. Mello Oliveira, que foi membro desta Academia. "Flora
Médica Brasiliense" de autoria do Dr. Alfbrowno da Matta, notável
clínico da cidade de São Luís do Maranhão e,
atualmente, representante do seu Estado, no Senado Federal.
Importantes outros trabalhos, esparsos sobre plantas
medicinais, como os do Dr. Felicio dos Santos, Miranda Azevedo,
Vieira de Mattos, que isolou o vieirino da quina mineira; João
Baptista de Lacerda, João Manoel da Costa, Barbosa Rodrigues, Joaquim
de Almeida Pinto e ultimamente Oswaldo Peckolt, Oswaldo Costa, Jayme Cruz
e outros.
Infelizmente a substituição da cadeira
com orientação didática e prática bem diversa
de um lado; por outro lado a invasão rápida dos produtos
químicos do arsenal terapêutico, pode-se dizer que alijaram
quase inteiramente da medicina oficial as plantas, daí os desinteresses
completos para a sua utilização e consequentemente
o abandono do seu estudo e aproveitamento industrial.
As modernas gerações de médicos,
não acbrownitam ou duvidam da ação medicamentosa das
plantas em geral, embora não desconheçam que os princípios
ativos de muitas delas são diariamente usadas com completo
êxito.
Já ouvimos a declaração de
um dos nossos mais acatados professores de farmacologia que, a não
ser raras plantas, como a digital, ipeca, quina e poucas outras,
as plantas utilizadas em medicina são absolutamente inúteis!
. . .
São razões fortes para explicar a má
vontade se não o repúdio injusto que em nosso país
encontram as plantas medicinais, por parte da medicina oficial.
Assim assistimos a esse triste contraste: enquanto o
emprego empírico entre o povo aumenta dia a dia, mostrando a eficácia
na cura de diversas enfermidades, a medícina oficial
se desinteressa ou repudia esses mesmos agentes terapêuticos.
Enquanto vemos aumentar e justificar nos países
estrangeiros o emprego e os efeitos terapêuticos das plantas, após
provas e demonstrações decisivas, no Brasil a medicina oficial
permanece parte indiferente à importante matéria e parte
hostilizando o seu emprego como recurso terapêutico.
Essa maneira errônea e impatriótica de
considerar as plantas medicinais, se tem feito refletir de modo altamente
prejudicial à sua expansão industrial, acarretando o desânimo
àqueles que com visão mais larga, vêm empregando vultosos
capitais na cultura e industrialização de numerosas das nossas
plantas indígenas medicinais.
Entre os raros médicos, que entre nós
vêm preconizando francamente a fitoterapia, justo é que seja
destacado, com o nosso entusiasmo, o eminente professor Dr. Henrique Roxo,
membro conspícuo desta casa, que em sua vasta clínica vem
dando expansão às plantas medicinais indígenas,
e, ao que parece, com os mais animadores resultados.
Pena é, Sr. Presidente, que sua Senhoria não
tenha conseguido até agora fazer adeptos a essa utilíssima
terapêutica.
Entre as diversas formas farmacêuticas em que
podem ser administradas as plantas medicinais: tinturas, alcoolaturas,
infusos, decoctos, extratos, intratos, abstratos, etc., a mais simples
e cômoda é sem duvida o extrato fluido.
O extrato fluido amplamente industrializado em nosso
país, é uma preparação farmacêutica racional,
perfeitamente estável, encerrando em um resumido volume, peso ,
igual de planta dessecada ao ar; ele contém todos os princípios
úteis e integrais da planta, pronto para emprego imediato, substituindo
assim a própria planta, por isto mesmo são denominados extratos
a peso igual da planta.
Empregar o extrato fluido equivale pois a empregar a
própria planta.
Esta é mesmo a forma preferida pelo professor
Henrique Roxo, no seu receituário ordinário.
Sr. Presidente: trazendo à Academia, a focalização,
deste assunto, temos em mira, despertar para ele a atenção
e o interesse dos senhores médicos clínicos, não só
salientando o importante e cada vez mais valoroso recurso terapêutico,
que representam as plantas, reconhecido em todos os países cultos,
como também para mostrar a necessidade que tem o corpo médico
brasileiro, de estimular e animar uma das mais futurosas fontes de renda
para o País, que é o cultivo intensivo e a industrialização
das plantas medicinais indígenas.
O inolvidável autor da nossa primeira farmacopéia,
farmacêutico Rodolpho Albino, deu à forma extrato fluido,
o mais amplo desenvolvimento na preparação de numerosas formas
nela consignadas, o que já permite uma larga expansão das
nossas plantas e com grandes vantagens de economia e de tempo na oficina
farmacêutica.
É necessário que a mesma expansão
seja dada pelos médicos do país em suas clínicas.
Não desconhecemos que na hora que passa os médicos clínicos
procuram evitar o formulário, limitando-se a prescrever medicamentos
industrializados, embora talvez sem se aperceberem que vêm contribuindo
dia a dia, para o seu próprio mal e de sua classe, tornando com
o quase exclusivo emprego das especialidades farmacêuticas o sacerdócio
respeitável da medicina e a prescrição dos medicamentos
acessíveis a toda a gente, contribuindo assim para uma maior invasão
do charlatanismo médico que campeia livremente no país.
Todavia, julgamos que pelo menos nos hospitais e organizações
sanitárias outras para indigentes ou pessoas de poucos recursos,
poder-se-iam utitizar as plantas como base de medicamento, quando mais
não fosse, ao menos tendo em vista, as vantagens econômicas
para essas instituições.
Um meio que talvez fosse eficaz para criar um ambiente
mais favorável ao emprego das plantas medicinais, seria a sua introdução
sistemática nas clínicas hospitalares, sob a forma de extratos
fluidos, puros ou em poções.
Deste modo além de permitirem a convicção
do efeito ante os resultados verificados nos doentes, tornaria os futuros
médicos familiarizados com o emprego das plantas por muitos motivos
preferível aos produtos químicos hoje largamente empregados.
Medida complementar talvez aconselhável no caso,
seria a volta do ensino da matéria médica vegetal nas Escolas
de Medicina do País.
(*) Publicado na Revista da Flora Medicinal - Ano IV - Nº 2
- NOV/1937 - Rio de Janeiro - pp. 95/110.
(**) Corrigida a ortografia do autor.