No meu mundo, os humanos são apenas parte, não
importa se a mais essencial. Sou abrigo para animais, plantas, ar, água
e qualquer outra forma de vida, numa só composição
de destino.
Um atentado ao menor elo dessa rede afeta o meu corpo
por inteiro. Lamentavelmente, nos últimos anos, em progressão
geométrica, toda a minha natureza vem sofrendo a síndrome
da poluição, disseminada aos quatro ventos pelos poderosos
de todas as nações.
“Ainda sou azul?” As florestas que, por vezes, levo
séculos para tornar adultas, de repente, são só gemidos.
É cada vez maior o número de animais a caminho da extinção.
Pássaros, peixes, mamíferos, répteis vêm sendo
constantemente abatidos pela caça indiscriminada, quando não
morrem sufocados por toda a sorte de resíduos lançados às
águas.
Chega de testes, bombas e arsenais nucleares! Já
não basta Hiroxima, Nagasáqui, Chernobyl? Que fazer com esse
lixo atômico que se acumula sobre nós, seja no solo, seja
no ar? Entendam, povos de todas as crenças e lugares: sou um ser
vivo, única habitada em um pequeno espaço, no meio deste
vasto universo! O meu signo é ser mãe do minério,
da árvore, do animal e do homem.
Corações e mentes de todos os cantos e
canticos não me deixem chegar ao fundo do poço! Como posso
oferecer o pão, a luz, o ar, a água se sou, cada vez mais,
destruída? É necessária uma nova consciência,
pois se eu morrer para os oprimidos, morrerei também para os opressores.
Miguel Sales
(Extraído do Jornal do Meio-Ambiente de janeiro de 1998)