Meio-Ambiente
"Achei o inimigo: o inimigo somos nós!"
HENFIL (1944-1988)
Natureza Morta
Eduardo Galeano
Em seus dez mandamentos, Deus esqueceu de mencionar
à Natureza. Entre as ordens que nos enviou desde o Monte Sinai,
o Senhor poderia ter agregado, por exemplo, um mandamento que diria algo
assim: "Honrarás à Natureza da qual faz parte". Mas não
ocorreu a Ele, ou Lhe pareceu que era óbvio.
Faz 5 séculos, quando a América foi incorporada
ao mercado mundial, a civilização invasora confundiu a ecologia
com a idolatria. A comunhão com a Natureza era pecado e merecia
castigo. Os carrascos que açoitaram, enforcaram ou queimaram vivos
aos índios que adoravam a Natureza, caluniaram a Deus atribuindo-lhe
a ordem.
O Pecado de Ser Ecologista
Segundo crônicas da conquista espanhola, os índios
nômades que usavam cascas de árvores para vestir-se, jamais
devastavam o tronco inteiro, e assim conservavam viva a árvore;
e os índios sedentários plantavam culturas diversas, e com
períodos de descanso, e assim conservavam viva a terra. A civilização,
que vinha impor as devastadoras monoculturas de exportação,
não foi capaz de entender aquelas culturas integradas à Natureza,
e as confundiu com a vocação demoníaca ou a ignorância.
E assim continuou. Os índios de Yucatán
e os que se rebelaram com Emiliano Zapata, perderam suas guerras porque
reservavam tempo para as semeaduras e as colheitas do milho, que para eles
era sagrada.
Chamados à terra, os soldados se desmobilizavam nos momentos decisivos
do combate. Para a cultura dominante, que era e é uma cultura militar,
assim os índios provavam sua covardia ou sua estupidez.
Desde o ponto de vista da civilização
que se considera ocidental e cristã, a Natureza sempre foi uma besta
feroz que haver-se-ia de domar e castigar para que funcionasse como uma
máquina, que Deus havia posto a nosso serviço desde sempre
e para sempre.
A Natureza, que era eterna, nos devia sujeição.
Muito recentemente tivemos a certeza de que a Natureza se cansa, como nós,
seus filhos; e sabemos agora que, como nós, pode morrer assassinada.
Já não se fala mais de submeter a Natureza: agora até
seus carrascos dizem que é necessário protegê-la. Mas,
em um ou outro caso, Natureza submetida ou Natureza protegida, ela está
fora de nós.
A civilização que confunde os relógios
com o tempo, o crescimento com o desenvolvimento e o que é grande
com a grandeza, também confunde a Natureza com a paisagem, enquanto
o mundo, labirinto sem centro, se dedica a romper seu próprio céu.
O Pecado de Ser Pobre
Acostumados como estamos a divorciar a Natureza de nós
mesmos, temos uma rotineira tendência a divorciar também a
ecologia da luta social. O que ocorre com a Natureza, e contra ela, é
outra coisa: pertence a uma dimensão que pouco ou nada tem a ver
com as desventuras humanas derivadas da injusta organização
do mundo.
Mas o mesmo sistema que trata o mundo como se fosse
uma pista de corridas, com poucos ganhadores e muitos perdedores, é
o mesmo que maltrata a Natureza com se fosse nada mais do que um obstáculo.
Segundo os mais recentes dados da ONU, as águas
contaminadas matam, a cada dia, 25.000 pessoas. E, certamente, as vítimas
são todas pobres: pertencem a isso que os técnicos chamam
de "estratos de população com baixos ou muito baixos níveis
de renda".
Foram os pobres, por exemplo, todos os mortos de cólera
na América Latina, quando nestes últimos anos retornou aquela
peste dos tempos antigos. As águas e os alimentos contaminados por
despejos industriais e os venenos químicos mataram gente como moscas.
Será culpa de Deus? Será que Deus acredita,
tal como os sacerdotes do mercado, que a pobreza é o castigo que
a ineficiência merece? Toda essa gente que havia cometido o delito
de ser pobre, foi sacrificada pelo cólera ou por um sistema que
apodrece o que toca, e que, em plena euforia da liberdade de mercado, desmantela
os controles estatais e desampara a saúde pública?
Chico Mendes, operário da borracha, caiu assassinado
em fins de 1988, na Amazônia brasileira, por acreditar no que acreditava:
que a defesa da Natureza não pode separar-se da defesa das pessoas,
e que a floresta amazônica não será salva, enquanto
não se fizer a reforma agrária no Brasil. Sem reforma agrária,
os camponeses, expulsos pelo latifúndio seguirão sendo pontas
de lança da expansão do próprio latifúndio
selva adentro, um exército de colonos, mortos de fome, que arrasam
bosques e exterminam índios, por conta do punhado de empresários
que monopolizam a terra conquistada e por conquistar.
Cinco anos depois do assassinato de Chico Mendes, os
bispos brasileiros denunciaram que mais de cem trabalhadores rurais morrem
assassinados, a cada ano, na luta pela terra, e calcularam que 4.000.000
de camponeses sem trabalho se encaminhavam para as cidades, desde as plantações
do interior, enquanto os bispos redigiam sua declaração.
Adaptando os números de cada país, essa
afirmação dos bispos retrata toda a América Latina.
As grandes cidades latino-americanas, inchadas até arrebentar, pela
incessante invasão dos exilados do campo, são uma catástrofe
ecológica: uma catástrofe que não se pode entender,
nem muito menos mudar, dentro dos limites de uma ecologia surda ante o
clamor social e cega ante o compromisso político. Nossos formigueiros
urbanos seguirão sendo infernos da ecologia, ainda que se ponha
em prática os projetos surrealistas que deliram ante as consequências
por impotência diante das causas: em Santiago do Chile propõem
explodir um morro com dinamite, para que os ventos possam limpar o ar;
na Cidade do México projeta-se ventiladores do tamanho de arranha-céus
. . .
Publicado em 'El tecolote' - Boletín de la
'Comisión Oaxaqueña de Defensa Ecológica' - Ano III
- Nº 16 - JUL/AGO/1996 - Oaxaca - Mexico - pp. 10/12.
Tradução de Douglas Carrara