Medicina Popular Brasileira (2)
Prof. Douglas Carrara
Atualmente é cada vez maior a participação
do povo, nas campanhas em defesa de uma melhor qualidade de vida. Um dos
fatores fundamentais para uma efetiva melhoria da qualidade de vida está
nas condições de saúde da população.
E é justamente neste setor que observamos uma
deficiência flagrante, que promove um enfraquecimento genético
de nossa população.
Afligida por uma desnutrição crônica,
sob condições de habitação precárias,
sem instalações sanitárias adequadas, trabalhando
num ambiente de trabalho desumano, submetendo seu corpo a uma série
de sobrecargas, tais como, jornadas de trabalho prolongadas, muito barulho,
poeira, produtos químicos e sofrendo mais acidentes de trabalho
do que qualquer trabalhador em qualquer parte do mundo, não poderia
deixar de provocar o aparecimento de índices cada vez mais elevados
de doenças que debilitam a saúde de nossa população.
Por outro lado, além de tais fatores debilitantes,
vemos que os laboratórios colocam no mercado uma grande quantidade
de remédios, muitos deles prejudiciais à própria saúde,
outros sem qualquer efeito, mas todos a preços exorbitantes. Como
se não bastasse, a população é estimulada a
consumir desenfreadamente através da propaganda pelo rádio
e televisão.
Quanto aos serviços de assistência à
saúde, o quadro da situação é dramático.
Quase todos funcionam em número insuficiente, mal distribuídos,
mal equipados, com equipes de médicos e funcionários mal
pagos e sobrecarregados de serviço. Sofrendo, inclusive, a traiçoeira
pressão dos lobbies do seguro de saúde que pretendem sucatear
o sistema de saúde para facilitar a venda de seus produtos. A própria
formação do profissional de saúde é inadequada
e deficiente. Nossas faculdades formam médicos incapacitados para
o atendimento clínico, já que os cursos são orientados
para a produção de especialistas em doenças raras
e em reabilitar defuntos. Por isso cada vez mais o médico sabe muito
sobre poucas coisas e que acabam por perder de vista o todo, o homem enfermo.
Como consequência leva a uma fragmentação da responsabilidade
frente ao paciente, e torna às vezes o médico um excelente
cirurgião plástico que não sabe tratar de uma disenteria.
Diante de tal situação, que consideramos
calamitosa, é necessário que alguma coisa seja feita antes
que o mal seja irremediável. Uma opção possível
seria o desenvolvimento da medicina holística no sentido, inclusive,
de promover uma concorrência capaz de forçar a medicina oficial
a se transformar e estimular um ensino médico preocupado com o atendimento
médico totalizante, no qual a saúde do paciente seja o seu
principal objetivo. Entretanto não temos a pretensão de substituí-la,
já que reconhecemos os inegáveis conhecimentos produzidos.
Evidentemente propomos apenas a pluralidade terapêutica e a institucionalização
da liberdade de escolha da terapia adequada a cada paciente, tal como no
passado se lutou pela liberdade de culto religioso.
Desde os tempos mais remotos, o homem lançou
mão dos três reinos da Natureza, para evitar as moléstias
e curar os seus males, procurando de preferência as ervas que o cercavam.
Substâncias vegetais, minerais, animais mesmo, forneceram em todas
as épocas e em todos os países, numerosos produtos dos quais
extraiam propriedades medicinais maravilhosas.
Infelizmente a doença da modernização,
que já contaminou as cidades, inaugurou um movimento de desprezo
e preconceito contra a medicina popular que passou a ser sinônimo
de atraso cultural. Entretanto a própria medicina atual constantemente
se apropria de tais práticas populares. Existem propriedades medicinais
nas plantas, que foram confirmadas pela ciência e que podem ser utilizadas
mesmo a nível popular.
Vejam o caso do QUEBRA-PEDRA (Phyllanthus Niruri), a
BALEEIRA (Cordia verbenacea) ou o CONFREI (Symphitum Officinale), plantas
de uso secular e que recentemente foram reconhecidas como medicinais.
Esta medicina popular, entretanto, capaz de produzir
tais descobertas fenomenais, entretanto, se encontra marginalizada, desorganizada
e impossibilitada de se desenvolver. Há mesmo o risco de se perder
muitos desses conhecimentos, especialmente na Amazônia, se não
empreendermos um movimento capaz de revalorizar esta medicina que nossas
avós tanto respeitavam. Evidentemente não basta apenas recuperá-la
e respeitá-la. É necessário que se libere urgentemente
verbas para pesquisas sérias sobre o assunto, especialmente para
formação de equipes multi-disciplinares, envolvendo, antropólogos,
médicos, botânicos, farmacologistas, etc.
Por nossa conta e risco, desenvolvemos pesquisa, localizada
agora em Maricá com o objetivo de construir um banco de dados informatizado
sobre medicina natural, abrangendo recursos medicinais das diversas regiões
geográficas brasileiras.
(*) Publicado no jornal InterBairros de Maricá (RJ), em fevereiro/1994
e no jornal Correio do Sul de Varginha (MG) em 13/02/1990.

