Em Defesa da Flora Medicinal
Prof. Douglas Carrara
A medicina popular pode ser considerada uma herança
cultural das três culturas básicas, formadoras da consciência
cultural do povo brasileiro. A fitoterapia, por exemplo, é em parte
herança que os índios nos legaram. Deles recebemos a maioria
dos nomes de plantas e suas utilidades. Os portugueses e os negros trouxeram
sementes e hábitos medicinais caseiros, provenientes de seus habitates
culturais. E isso pode ser comprovado pela enorme quantidade de plantas
de origem européia e africana aqui aculturadas e largamente utilizadas
pela população para fins medicinais.
Tal acervo cultural vem- se transmitindo através
das gerações, sob bases estritamente tradicionais. Sempre
relegada a segundo plano, a medicina popular na verdade representa para
o povo brasileiro, constantemente assolado pela miséria, abandono
e pela inexístêncía de cuidados médicos científicos
e sanitários, um recurso terapêutico valioso, apesar de que,
na maioria das vezes, incerto e precário. A difusão desta
medicina se dá, mesmo nas grandes cidades, onde existam feiras,
mateiros (comerciantes de ervas) com suas bancas de folhas, raizes, cascas
e sementes, ou então nas poucas lojas comerciais especializadas.
Mas a fonte de difusão e aplicação
da medicina popular se encontra no vasto interior brasileiro, onde quase
sempre a única medicina existente é a exercida pelos curandeiros,
as "curiosas", benzedeiras e "curadores de cobra". Dos 3.950 municípios
do Brasil, 1.895 não contam com nenhum profissional da medicina
- médicos ou enfermeiros, 2.191 não têm hospitais.
(Opinião nº 96).
Toda a ciência não teria se desenvolvido
se, paralelamente, não se desenvolvesse o conhecimento empírico
da realidade. A medicina sempre se utilizou da observação
empírica em auxílio a suas pesquisas e descobertas. O uso
dos vegetais é o resultado de pesquisas sobre dados oferecidos pelo
uso popular. No entanto, a ciência, mesmo que não trabalhe
desta maneira, acaba confirmando a observação popular.
Há quanto tempo que o nosso caboclo não
vinha colocando a casca de queijo embolorado sobre as feridas "brabas ou
arruinadas"? Se este fato houvesse sido estudado há mais tempo,
quem sabe a penicilina não teria sido descoberta muito antes? Fatos
semelhantes se repetem e exigem, portanto, uma tomada de posição,
por parte da ciência, quanto à avaliação crítica
de tais recursos populares.
Realmente esses recursos são inumeráveis,
mas distribuídos de maneira muito desigual e espalhados pelo imenso
território nacional, o que somente permite a sua avaliação,
dependendo da insistente investigação e pesquisa ou então
do acaso. Esses recursos surgem e são utilizados pelo povo sem nenhuma
conotação valorativa.
A flora brasileira fornece abundantemente esses recursos.
Por isso, proliferam os hemostáticos, diuréticos, purgativos,
afrodisíacos, cicatrizantes, anestésicos, febrífugos,
calmantes, depurativos, etc. Um exemplo: a raiz do jaborandi (Ottonia anisum),
mastigada, deixa a boca anestesiada por muitas horas, acalmando as
dores de dentes. A iagina, substância extraida do caapi (Banisteripsis
caapi), usada no tratamento da malária e do mal-de-Parkinson. Durante
a gripe espanhola, de 1918, o melão-de-São-Caetano ( Momordica
charantia), erva tão comum em terrenos baldios, foi usada com sucesso
como preventivo e mesmo para a cura da enfermidade. A espinheira santa
(Maytenus ilicifolia), planta do sul do país, é um excelente
cicatrizante de úlceras estomacais, tendo, inclusive, sua eficácia
comprovada por vários médicos. Recentemente, o avelós
ou dedo-de-cão (Euphorbia tirucalli), planta largamente encontrada
nas regiões áridas do nordeste, foi estudada pelo Instituto
Nacional de Tecnologia de Recife e poderá ser utilizada com sucesso
no combate às doenças tropicais. A pata-de-vaca (Bauhinia
forficata) tem sido muito utilizada com sucesso no combate ao diabetes
melitus.
Como estas, existem para mais de mil plantas, cujas
propriedades medicinais são mais ou menos conhecidas e utilizadas
pelo povo. Para um pais que possui tal coleção de plantas
medicinais, é razoável que troquemos os nossos vegetais por
drogas importadas, produzidas por empresas multinacionais e que muitas
vezes nada mais são do que alcalóides isolados de plantas
brasileiras, sob o disfarce de uma fórmula química complexa
e uma intensa propaganda perniciosa para a saúde do povo e a economia
nacional?
Atualmente, o estudo das ervas medicinais está
em abandono. As informações sobre a flora medicinal, ainda
são as fornecidas por Caminhoá (1877), Martius (1854), Peckolt
(1888), Pio Correa (1934) e Hoehne (1939). As edições recentes
de livros sobre a flora medicinal nada mais são do que copilações
em que são reunidas tais pesquisas, que se desenvolveram, na maioria
das vezes, de modo precário, de acordo com declarações
dos próprios autores, que se confessavam impotentes diante de uma
realidade, tão exuberante como a brasileira e também diante
do descaso das autoridades brasileiras pela salvaguarda de nossas riquezas
naturais.
(*) Publicado no jornal Opinião do Rio de Janeiro (RJ), em 21/05/1976.

