Medicina Popular
Vegetais Anthelmínticos
Enumeração dos Vegetais Empregados
na Medicina Popular como Vermífugos
F. C. HOEHNE
Botânico do Instituto de Butantan
São Paulo
EXPLICAÇÃO
Tratando-se de um trabalho destinado a pessoas que dispensam
os conhecimentos técnicos de Botânica, resolvemos, para maior
facilidade de consulta, distribuir a matéria pela ordem alfabética
das famílias, gêneros, e espécies científicas
e deixar para o índice e na mesma ordem os nomes vulgares, etc.
Por idêntica razão procuramos fazer as descrições
bastante acessíveis e juntar a muitas delas ilustrações,
que, em grande maioria, são reproduções fiéis
de outros trabalhos dignos de inteira confiança, e, nesta conformidade,
foram ainda feitas as descrições daquelas espécies
de que não logramos obter material para fazê-las originais.
Ao companheiro e amigo Dr. Afranio do Amaral,
que bondosamente reviu a parte médica, e ao nosso auxiliar e prezado
amigo Euclydes da Costa Soares, que fez a revisão e o índice,
apresentamos, juntamente ao Dr. Arthur Neiva, Diretor Geral do Serviço
Sanitário de S. Paulo, nossos sinceros agradecimentos.
INTRODUÇÃO
Na gênese da sua existência os vários
povos tiveram, sem dúvida nenhuma, que lutar com as maiores e as
mais duras dificuldades para se manterem invencíveis contra os elementos
da natureza indômita que os cercavam. Era a luta de um lado contra
as feras e os semelhantes hostis, empenhados igualmente na luta pela existência,
de outro, contra as intempéries, o frio, o excessivo calor e, principalmente,
contra a fome e os males que assaltavam o corpo.
Se das chuvas e intempéries as cavernas ou locas
das rochas os protegiam, oferecendo-lhes abrigo e agasalho, e se o sílex
lhes dava o material com que confecionavam as primitivas armas de que se
serviam, aos vegetais, no entanto, é que recorriam quando no fabrico
de suas flechas, careciam de cabos ou lanças para as aguçadas
pontas de sílex ou ainda, quando preparavam os flexíveis
arcos com que impeliam seus mortíferos dardos.
Mas, antes disto, a fome já estava sendo saciada
com os frutos dos vegetais; e mais tarde, as caçadas fornecendo
a carne com que eles se nutriam, era também com o suco das
ervas e frutos diversos que a condimentavam. E se as peles dos animais
abatidos lhes serviam de vestuário, as folhas e as fibras foram
os objetos com que a princípío cobriram a sua nudez que mais
tarde, na falta daquelas, se tornaram indispensáveis.
Quando feridos pelos inimigos, ou quando enfermos era
aos vegetais que elles recorriam. Aí encontravam o lenitivo para
as feridas e o remédio para os males do corpo.
No meio da natureza em que viviam, os vegetais representavam
para eles o maior tesouro, o maior dom da criação.
A princípio chegaram mesmo a admitir que a natureza
tivesse sido propositada e prodigiosamente equipada em benefício
deles, a ponto de ser dada a cada espécie vegetal a maior semelhança
possível com o orgão para o qual mais enérgicas virtudes
encerrasse. Começou-se a ver nos orgãos reprodutivos e vegetativos
das plantas certa identidade com os órgãos do corpo humano,
e, foi assim que Aristóteles criou o primeiro sistema para classificação
dos vegetais, aparecendo as Hepaticas, Orchidaceas, Cardiaceas e muitíssimos
outros grupos cujos nomes em parte ainda hoje subsistem.
Sendo as plantas tão úteis ao homem, não
é de admirar que, no decorrer dos séculos, surgisse para
ele a necessidade de arranjar-lhes classificação mais racional,
pela qual fosse fácil reconhecer as mais úteis para determinados
fins e separar as já conhecidas como nocivas ou imprestáveis.
Nem é de estranhar que o número de espécies tidas
como úteis ou nocivas aumentasse a ponto de se chegar a usar contra
um mesmo mal, às vezes, dezenas de plantas de virtudes idênticas.
Neste estado se encontram ainda hoje as coisas, e é
de lastimar o menosprezo com que a classe médica, em regra, encara
a terapêutica indígena e popular. É verdade que, hoje
mais do nunca, o povo emprega, na sua terapêutica milhares e milhares
de espécies vegetais de nenhum efeito curativo e às vezes
mesmo nocivas. Perguntamos, porém, de onde retirou a medicina moderna
os seus maiores recursos? - Não são porventura ainda os preparados
vegetais que maiores prodígios operam e não são deles
os mais eficazes alcalóides, os óleos e as essências
preciosas de que a medicina dispõe? Não foi dos índios
que aprendemos a fazer uso do mate, guaraná, fumo, baunilha, cacau,
curare, estriquinina, coca e outras plantas medicinais e tóxicas?
- Para que então esse menosprezo pela ciência indígena?
Se de uma parte de vegetais primitivamente empregados
empiricamente, tantos benefícios procederam; se as Chinchonas do
Peru, administradas assim pelos selvagens revelaram tão grande poder
curativo nas febres; quanto as Menthas, há séculos antes
utilizadas, de virtudes se mostraram para outras moléstias; não
parece lógico e muito natural que se procure analisar, estudar os
vegetais no sentido de aproveitarmos ainda muito maior número de
espécies, ou, pelo menos, para demonstrar cientificamente o que
de verdadeiro e aproveitável existe na asserção popular
para a Ciência Médica?
Poucas são as pessoas capazes de avaliar e dar
o devido apreço a semelhantes pesquisas, e as que o são ou
que desejariam fazer qualquer coisa neste sentido, esbarram com várias
dificuldades, graças às quais nem sempre conseguem levar
avante e a termo as suas intenções.
Uma e talvez a maior dificuldade com que deparam é
a identificação exata do vegetal. O nome vulgar, sob que
encontram a prescrição popular é, - como sabem todos
aqueles que se tenham ocupado com estes assuntos, - uma informação
muito incerta, que na maioria dos casos pode antes contribuir para desnortear
que para orientar o indivíduo, pois não define, senão
raramente, uma mesma espécie. Ao contrário, um mesmo nome
vulgar é dado comumente a várias espécies, que muitas
vezes pertencem a grupos, gêneros e famílias diversas. Por
outro lado, também não é raro que uma espécie
seja portadora de vários nomes vulgares e de accordo com os quais
várias virtudes lhe são atribuidas, representando às
vezes várias designações locais. Para isto documentarmos,
é suficiente citarmos o "tingui" ou "timbó". Quantas espécies
botânicas são conhecidas por estes nomes, pelo vulgo dados
como sinônimos? - Várias espécies de Leguminosas, Sapindaceas,
Euphorbiaceas, Anacardiaceas, etc. estão agrupadas sob eles. Porque,
neste caso, o nome vulgar, - como ainda em muitos outros, nada mais define
que a propriedade da planta. Ele significa apenas que a planta é
"tinguijante", isto é ictiocida; mas, espécies vegetais com
propriedades ictiocidas ou empregadas como tinguis, só Greshoff,
- autor que mais adiante citaremos, - enumera num dos seus trabalhos, mais
de quinhentas!
Outra dificuldade é a obtenção
do material necessário para as pesquisas e experiências fisiológicas,
porque nem sempre é possível averiguar-se o habitat exato
de uma planta, onde possa ser colhida ou conseguir-se informações
seguras a seu respeito. No Brasil o reino vegetal é muitíssimo
mais rico que nas regiões extratropicais, em lugar das poucas espécies
farmacêuticas européias, se apresenta aqui um exército
inteiro munido de iguais virtudes medicamentosas, de forma que tudo isto
contribui para aumentar-nos as dificuldades a vencer no esclarecimento
das questões complicadas da terapêutica indígena.
"Percorrendo com os olhos os tesouros medicinais do
Brasil", dizia Martius, "não devemos esquecer que a terra que os
contém é de uma considerabilíssima extensão;
e que não existe nela uma só província em que conjuntamente
se encontrem todas aquelas plantas. É portanto manifesto que os
médicos brasileiros que desejarem coordenar cientificamente a multidão
das plantas medicinais, devem ter em vista quais são as produzidas
geralmente em todo o País, quais são as que produzem algumas
províncias e quais não. Na farmacopéia brasileira
devem ser postas, logo depois das plantas que são espontâneas
em toda a parte, as que transplantadas subsistem com a mesma generalidade.
Na escolha porém das que o emprego medicinal fizer levar da patria
primitiva para lugares diversos do Império, deve haver o maior cuidado
em admitir somente aquelas cujas virtudes não forem afetadas pela
mudança. O mesmo se deve observar com as que forem importadas da
Europa. É fácil de conceber que este trabalho útil
e civil não é de fácil e pronta execução".
E mais adiante diz ele ainda: "Nenhum medicamento deveria ser empregado
ou adotado oficialmente senão depois de um cuidadoso exame por pessoas
competentes, com o que se procuraria conseguir que a classificação
dos remédios não dependesse de meras tradições
domésticas, ou de embustes de homens ignorantes, mas antes de uma
esclarecida experimentação de cada um dos medicamentos. Atualmente
os especuladores, a que chamam "curandeiros", empregam muitos artifícios,
e não só no campo ou sertão, onde os médicos
são raros, mas mesmo nas cidades, o que é considerado pelos
médicos e farmacêuticos brasileiros eruditos um grande obstáculo
para reduzir-se a praxe médica a regras certas; e de que maneira
possa isto ser evitado, é impróprio deste lugar discuti-lo.
Entretanto, parece-me que estas coleções que aqui ofereço
aos brasileiros conhecedores dos medicamentos do seu País, contribuirão
para que essa meta se considere mais aproximada".
Isto escreveu o grande benfeitor botânico há
um século! - Que se tem feito entretanto até hoje no sentido
de alcançar a meta proposta então?
A balbúrdia continua reinando em tudo e, hoje
como então, os "curandeiros", abusando da ingenuidade do público,
florescem mais do que nunca nos seus artifícios e negócios
de má fé.
A tarefa é, como disse o grande sábio
naturalista, árdua e difícil, e não pode ser levada
a cabo por um só indivíduo, é preciso que os esforços
se reunam com uma só diretriz. A parte principal cabe aos médicos
e químicos, a eles assiste o dever de peneirar, de separar o trigo
do joio. Ao botânico compete a preparação do terreno
para esta obra, estabelecendo as relações existentes entre
os vegetais vulgarmente empregados e aqueles já oficialmente incorporados
ao patrimônio terapêutico. Ele tem o dever de classificar o
material e assim orientar aos demais pesquisadores nos seus trabalhos e
é, reconhecendo este mesmo dever, que hoje ousamos apresentar o
nosso concurso.
Com a apresentação do opúsculo
sobre vegetais anthelmínticos, temos em mira facilitar a ação
dos químicos e dos médicos que desejarem se ocupar com esse
estudo. Nele encontrarão enumeradas todas as espécies botânicas
que pela observação nossa e de outros autores tem sido registradas
e consideradas pelo povo como remédios contra a verminose; além
da indicação da bibliografia, distribuição
geográfica e outros empregos, encontrarão também a
descrição de todas as espécies indígenas do
Brasil ou introduzidas, e hoje largamente cultivadas, que tenham emprego
como vermífugo. Após a enumeração das várias
espécies anthelmínticas de cada grupo botânico, fizemos
seguir algumas notas interessantes sobre outras espécies medicinais
pertencentes ao mesmo grupo cujas virtudes já estudadas, são
utilizadas para outras moléstias.
É muito provável que muitas das plantas
aqui enumeradas não tenham valor algum como vermífugo e outras
que já estejam consagradas oficialmente, nada disto, porém,
nos impediu de expô-las, porque, como dissemos linhas acima, o nosso
trabalho tem por objetivo apenas auxiliar as futuras pesquisas sobre os
anthelmínticos de origem vegetal.
Neste trabalho não procuramos demonstrar ou provar
a ação desta ou daquela planta, nem tentamos também
examinar se na asserção do povo existe ou não algo
de verdadeiro, registramos apenas, deixando essa parte aos que se quiserem
especializar no assunto.
Em resumo, este trabalho é de ordem puramente
sistemática e, apresentando-o ao público, prontificamo-nos
também a ceder, enquanto estivermos encarregados desta Seção,
o material de plantas indígenas que nos for solicitado pelas pessoas
que desejarem continuar esta obra e firmar com estudos, analises e experiências
as propriedades vermífugas que o povo a tais plantas atribui, concorrendo
desta maneira para extinguir um dos maiores flagelos em nosso meio - a
verminose.
Esta publicação se nos apresenta tanto
mais inadiável, quando temos que atender ao fato de nos encontrarmos
cada dia mais limitados aos nossos próprios recursos. Esta guerra
finda veio demonstrar-nos mais uma vez, que só é realmente
forte e rica, ou independente, a nação que pode contar com
os seus recursos internos. Até á presente data temos importado
do estrangeiro todos os anthelmínticos consumidos. Entretanto, ainda
não foram desmentidas a riqueza e a majestade da nossa flora, aliás
cantada e apregoada por quantos a têm visto, mesmo por aqueles que
nada conhecem dos seus tesouros. Nela se encerram centenas de vegetais
que, com vantagem, poderiam substituir e talvez suplantar as drogas que
nos vêm de fora, e que por sinal são em grande maioria, fabricadas
de plantas que em nossso meio também se acham. Urge que isto mude,
que nos equiparemos em todos os sentidos às demais nações
fortes do globo, procurando imitar o que de melhor elas possuem. Se tais
povos adiantados desde muitos anos fizeram seleção na sua
fitoterapia, tirando da flora pátria o que de utilidade real encerrava
e refugando o que era inútil ou nocivo, que nos impede de fazermos
o mesmo?
De pequeníssimas células se compõe
o nosso corpo, de milhares de tijolos se formam os grandes edifícios
e, da mesma maneira, do conjunto de trabalhos especiais resultam as grandes
obras, que, tanto mais úteis e perfeitas se tornam, quanto maior
seja o número de especialistas que
nelas colaboram.
Apresentamos, pois esta nossa partícula, que
por si já representa o esforço e a contribuição
de vários colegas e, oxalá, que outras e outras a ela se
agreguem e em poucos anos seja dado colher os frutos de todas resultantes.
(*) Extraido do livro publicado em 1920 pelo Serviço Sanitário
do Estado de São Paulo.
(**) Corrigida a ortografia do autor.

