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O PensamentoMédico Popular em Magé - RJ

Visitante nº     (desde 01/08/2011)

Douglas Carrara, antropólogo (Programa PESES/PEPPE-Fiocruz) - email: djcarrara(arroba)hotmail.com - Caixa Postal 114.010 Maricá (RJ) - 24900-970 - Brasil

   Através de abordagem antropológica, os praticantes e usuários da medicina popular do município de Magé (RJ) foram estudados, na década de 80, com o objetivo principal de estabelecer os princípios lógicos formadores do pensamento médico popular.

   Utilizou-se o método qualitativo de análise dos dados, recolhidos através de entrevistas gravadas com os informantes indicados socialmente como mateiros, raizeiros, rezadores, parteiras ou umbandistas.

   Durante todo o processo de pesquisa, apenas utilizou-se a técnica da observação participante, buscando, portanto, o maior tempo de convivência possível com os entrevistados. Sempre que possível amostras das substâncias utilizadas na medicina popular foram recolhidas para posterior identificação científica. Desprezadas as substâncias de origem vegetal não identificadas, 203 plantas foram reconhecidas como medicinais. 31 % destas plantas faziam parte da Farmacopéia Brasileira de 1929.

   Ainda que em pequena quantidade, substâncias de origem animal e mineral, assim como alguns produtos industrializados e farmacêuticos são utilizados por usuários e praticantes da região. As indicações terapêuticas recolhidas e consideradas difundidas na região foram comparadas com a história terapêutica de cada substância e ficou demonstrado um alto nível de congruência com a história registrada na bibliografia consultada. Raros foram os casos de indicações não amparadas na bibliografia. Podemos constatar também a existência de um processo de experimentação popular intenso (medicina popular primária), que leva a descoberta de novas propriedades terapêuticas nas substâncias utilizadas. A medicina popular secundária, formada por usuários que não respeitam os rituais populares de coleta, exigências consideradas necessárias para que os remédios tenham efeito.

   Identificamos também a existência de três princípios básicos utitlizados no pensamento médico popular, que pertencem também ao pensamento mágico, de acordo com Mauss/Lévi-Strauss: a similaridade (o semelhante age sobre o semelhante), a contrariedade (o contrário é anulado pelo contrário) e a contigüidade (a parte vale pelo todo).

   Permeando o processo de pensamento existe subjacente uma lógica de inclusão/exclusão (tudo aquilo que é incluído dentro de uma determinada categoria age ou influi entre si, com exclusão das demais coisas). Esta maneira própria de pensar, característica de povos primitivos, sem escrita e de povos civilizados não alfabetizados, também produz um saber, ainda que não utilize a lógica da causa/efeito, característica do pensamento cientifico.

   Com a introdução de disciplinas científicas destinadas ao estudo do saber popular (etnobotânica, etnofarmacologia, antropologia da saúde), que, em última análise, visam a descoberta de novos princípios ativos úteis para a medicina atual, a ciência reconhece a produção de um saber, através de metodologia não-científica, isto é, um saber produzido pelo pensamento mágico. Entretanto a metodologia freqüentemente utlizada por etnobotânicos ou etnofarmacologistas (formulários semi-abertos destinados a usuários da medicina popular), dificilmente atingem a medicina popular primária, na medida em que existem rituais de preservação do saber médico popular, conforme a pesquisa demonstrou.

   Os dados recolhidos na pesquisa foram utilizados na elaboração do livro "Possangaba - O Pensamento Médico Popular", de Douglas Carrara, editado em 1995, pela Ribro Soft.

   Prof. Douglas Carrara

   Antropólogo,

professor

pesquisador de fitoterapia

e medicina popular

djcarrara(arroba)hotmail.com


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