Nutrição
"Quando a fome do mundo chegar ao nível de
termos de comer os troncos das árvores, será bom lembrar que
devemos comê-las com casca, pois é onde estão as vitaminas."
Eno Teodoro WANKE (1929- )
PROPOSTA MODESTA:
VAMOS COMER NOSSAS CRIANÇAS!
É objeto de tristeza, para quem anda por esta
grande cidade ou viaja pelo interior, ver ruas, estradas e portas de casebres
apinhadas de mendigas seguidas de três, quatro ou seis crianças
esfarrapadas, importunando os passantes com pedidos de esmolas. Essas mães,
incapazes de ganhar a vida com trabalho honesto, são obrigadas a
gastar todo o seu tempo a vagar a esmo, implorando o sustento de seus desvalidos
filhinhos que, ao crescerem, tornam-se ladrões por falta de trabalho.
(...)
A questão portanto é: como essas crianças
serão criadas e sustentadas? (...) Essas crianças raramente
conseguem ganhar a vida roubando antes dos seis anos de idade, excetuando
os extraordinariamente precoces. (...)
Foi-me informado por um americano de grande saber, que
faz parte de meu círculo de amizades em Londres, que uma criancinha
sadia e bem alimentada é, com um ano de idade, um alimento dos mais
deliciosos, nutritivos e saudáveis, quer ensopada, assada ou cozida,
e não tenho dúvidas de que ela poderá também
ser preparada como fricassé ou ragu. (...)
Uma criança dará para dois pratos, no
caso de um jantar para amigos e, numa refeição em família,
os quartos dianteiros e traseiros serão suficientes para a preparação
de um prato razoável que, se temperado com sal e pimenta, poderá
ser aproveitado no quarto dia como um ótimo cozido, especialmente
no inverno. (...)
Reconheço que esse alimento será um tanto
caro e, desse modo, muito adequado para os proprietários de terras,
os quais, já tendo devorado a maioria dos pais, são os que
têm mais direito sobre os filhos.
A carne da criança poderá ser encontrada
o ano todo, com maior abundância em março. (...) Aqueles que
forem mais econômicos (como reconheço que os tempos atuais
o exigem), poderão esfolar a carcaça cuja pele, artificialmente
preparada, se prestará à confecção de admiráveis
luvas para senhoras e botas de verão para cavalheiros refinados.
Quanto às nossas cidades, poder-se-á estabelecer
matadouros para este propósito nas áreas mais convenientes;
e podemos assegurar que açougueiros não faltarão,
embora eu raramente recomende que as crianças sejam compradas vivas
e preparadas imediatamente após o abate, como o fazemos com o porco
assado. (...)
A falta de carne poderia muito bem ser suprida pelos
corpos de jovens rapazes e raparigas com idade não superior a quartorze
anos nem inferior a doze, tamanho o número de crianças de
ambos os sexos em todas as regiões que estão morrendo de
fome por falta de trabalho e ocupação. Isso, é claro,
a critério de seus pais, se vivos, ou caso contrário, de
seus parentes mais próximos. Mas, com a deferência devida
a um amigo tão excelente e um patriota tão digno, não
posso estar de pleno acordo com suas idéias. Isso porque, quanto
aos machos, meu amigo americano assegurou-me, a partir de experiência
freqüente, que a carne dos mesmos era geralmente dura e magra, devido
aos contínuos exercícios, e que seu sabor era desagradável,
e engordá-los não resolveria o problema.
Quanto às fêmeas, isso seria, eu creio,
com humilde submissão, uma perda para o público, pois elas
próprias logo tornar-se-iam reprodutoras; além disso, não
é improvável que algumas pessoas escrupulosas poderiam vir
a censurar tal prática (embora muito injustamente) como sendo um
tanto cruel, o que, eu confesso, sempre foi para mim a mais forte objeção
contra qualquer projeto, por mais bem intencionado que fosse. (...)
Algumas pessoas de espírito desalentado sentem
grande preocupação com o imenso número de pobres que
são velhos, enfermos ou aleijados e têm-me solicitado que
eu empregue meus pensamentos em descobrir que caminho tomar para aliviar
a nação de um ônus tão penoso.
Mas essa questão não me causa a menor
preocupação, pois é fato sabido que essas pessoas
estão, a cada dia, morrendo e apodrecendo, por causa do frio e da
fome, da imundície e dos vermes, tão rápido quanto
se possa esperar.
Quanto aos jovens trabalhadores, eles estão agora
em condições quase tão promissoras quanto essas: eles
não conseguem trabalho e, conseqüentemente, definham por falta
de alimento, a tal ponto que, se a qualquer momento forem porventura contratados
para o trabalho comum, não terão forças para executá-lo.
E assim o país, e eles próprios, estão bem próximos
de serem salvos dos males que virão. (...)
Esse alimento traria igualmente grande clientela para
os hotéis, onde os cozinheiros certamente teriam a prudência
de tentar obter as melhores receitas para o seu perfeito preparo; em conseqüência,
teriam seus estabelecimentos freqüentados por todos os finos cavalheiros
que se orgulham de seus conhecimentos na arte de comer bem, e um cozinheiro
habilidoso, que sabe como satisfazer seus fregueses, inventará maneiras
de cobrar por esses pratos o que ele quiser e bem entender. (...)
Veríamos em breve mulheres casadas disputando
honestamente qual delas poderia trazer ao mercado a criança mais
gorda. Os homens tornar-se-iam tão afetuosos para com suas mulheres,
durante a gravidez, como o são agora para com suas éguas
e vacas prenhes ou suas porcas prestes a parir; não as espancariam
ou chutariam (prática, aliás, muito freqüente) com medo
de um aborto.
Muitas outras vantagens podem ser enumeradas. Por exemplo,
o acréscimo de algumas milhares de carcaças a nossas exportações
de carne de gado em barris, a propagação da carne suína
e o aperfeiçoamento de se fazer toucinho de boa qualidade, do qual
estamos tão necessitados devido ao grande extermínio de porcos,
tão freqüentes em nossas mesas, mas que, de modo algum, se
comparam, em sabor ou magnificiência, a uma gordinha criança
de um ano que, assada inteira, fará bela figura numa recepção
oferecida pelo senhor prefeito ou qualquer outra comemoração
pública. Deixo de mencionar muitas outras vantagens, pois aprecio
a concisão.
Supondo que mil famílias desta cidade venham
a ser consumidoras freqüentes de carne de criança, fora outras
que as comeriam em ocasiões festivas, especialmente casamentos e
batizados, calculo que o consumo (...) poderia chegar a vinte mil carcaças
por ano. (...)
Não consigo pensar em objeção alguma
que possa vir a ser levantada contra esta proposta. (...) Portanto, que
não me venham falar de outros expedientes: de tributar nossos proprietários
de terras que, delas ausentes, somente lhes aufere os lucros. (...)
Desejo que os políticos, a quem desagrada minha
iniciativa, e que talvez tenham a ousadia de tentar discuti-la, perguntem
antes aos pais desses mortais se eles hoje não considerariam uma
grande felicidade terem sido vendidos como comida na idade de um ano, da
forma que ora proponho, e desta maneira evitado a perpétua sucessão
de desgraças pela qual tiveram que passar, devido à opressão
dos proprietários de terras, à impossibilidade de pagar o
aluguel, sem dinheiro nem ofício, à falta dos meios de subsistência
mais básicos, nem teto nem roupas para abrigá-los das inclemências
do tempo e à perspectiva inevitável de legar à sua
prole misérias semelhantes ou ainda maiores.
Declaro, com toda sinceridade de meu coração,
que não sou movido pelo menor interesse pessoal, ao tentar incentivar
essa tão necessária tarefa, não tendo outro motivo
senão o bem público de meu país, através do
progresso de nosso comércio, do cuidado de nossas crianças,
do alívio para os pobres, dando também algum prazer aos ricos.
Não tenho filhos, através dos quais possa lucrar um só
centavo.
PS: O texto acima, reproduzido com alguns cortes, mas
sem adição, é obra de Jonatham
Swift (1667-1745), que o escreveu em 1729. Este autor satírico
de língua inglesa é, também, autor de "As
Viagens de Gulliver".
Frei Beto
Extraído do Jornal Popular