Saúde
"Você gosta de crianças brincando
na relva?
Não? Ah! Você prefere os lucros de Cubatão?
Tudo bem ..."
Douglas CARRARA (1943- )
Uma Crônica Sobre o Viver Atual
Era seu último dia de vida, mas ele ainda não
sabia disso.
Naquela manhã, sentiu vontade de dormir mais
um pouco. Estava cansado porque na noite anterior fora deitar muito tarde.
Também não havia dormido bem. Tinha tido um sono agitado.
Mas logo abandonou a idéia de ficar um pouco mais na cama e se levantou,
pensando na montanha de coisas que precisava fazer na empresa.
Lavou o rosto e fez a barba correndo, automaticamente,
não prestou atenção no rosto cansado nem nas olheiras
escuras, resultado das noites mal dormidas. Nem sequer percebeu um
aglomerado de pelos teimosos que escaparam da lâmina de barbear.
"A vida é uma seqüência de dias vazios
que precisamos preencher", pensou enquanto jogava a roupa por cima
do corpo.
Engoliu o café e saiu resmungando baixinho um
"bom-dia", sem convicção. Desprezou os lábios da esposa,
que se ofereciam para um beijo de despedida. Não notou que os olhos
dela ainda guardavam a doçura de mulher apaixonada, mesmo depois
de tantos anos de casamento. Não entendia porque ela se queixava
tanto da ausência dele e vivia reivindicando mais tempo para ficarem
juntos. Ele estava conseguindo manter o elevado padrão de vida da
família, não estava? Isso não bastava?
Claro que não teve tempo para esquentar o carro
nem sorrir quando o cachorro, alegre, abanou o rabo. Deu a partida e acelerou.
Ligou o rádio, que tocava uma canção antiga do Roberto
Carlos, "detalhes tão pequenos de nós dois..."
Pensou que não tinha mais tempo para curtir detalhes
tão pequenos da vida. Anos atrás, gostava de assistir ao
programa de Roberto Carlos nas tardes de domingo. Mas isso fazia parte
de outra época, quando podia se divertir mais.
Pegou o telefone celular e ligou para sua filha. Sorriu
quando soube que o netinho havia dado os primeiros passos. Ficou sério
quando a filha lembrou-o de que há tempos ele não
aparecia para ver o neto e o convidou para almoçar. Ele relutou
bastante: sabia que iria gostar muito de estar com o neto, mas não
podia, naquele dia, dar-se ao luxo de sair da empresa. Agradeceu
o convite, mas respondeu que seria impossível.
Quem sabe no próximo final de semana? Ela insistiu,
disse que sentia muita saudade e que gostaria de poder estar com ele na
hora do almoço.
Mas ele foi irredutível: realmente, era impossível.
Chegou à empresa e mal cumprimentou as pessoas.
A agenda estava totalmente lotada, e era muito importante começar
logo a atender seus compromissos, pois tinha plena convicção
de que pessoas de valor não desperdicam seu tempo com conversa fiada.
No que seria sua hora do almoço, pediu para a
secretária trazer um sanduíche e um refrigerante diet. O
colesterol estava alto, precisava fazer um check-up, mas isso ficaria para
o mês seguinte. Começou a comer enquanto lia alguns
papéis que usaria na reunião da tarde. Nem observou
que tipo de lanche estava mastigando.
Enquanto mastigava relacionava os telefones que deveria
dar, sentiu um pouco de tontura, a vista embaçou. Lembrou-se do
médico advertindo-o, alguns dias antes, quando tivera os mesmos
sintomas, de que estava na hora de fazer um check-up. Mas ele logo concluiu
que era um mal-estar passageiro, que seria resolvido com um café
forte, sem açúcar.
Terminado o "almoço", escovou os dentes e voltou
à sua mesa. "A vida continua", pensou. Mais papéis para ler,
mais decisões a tomar, mais compromissos a cumprir. Nem tudo
saía como ele queria. Começou a gritar com o gerente, exigindo
que este cumprisse o prometido. Afinal, ele estava sendo pressionado
pela diretoria. Tinha de mostrar resultados.
Será que o gerente não conseguia entender
isso?
Saiu para a reunião já meio atrasado.
Não esperou o elevador. Desceu as escadas pulando de dois em dois
degraus. Parecia que a garagem estava a quilômetros de distância,
encravada no miolo da terra, e não no subsolo do prédio.
Entrou no carro, deu partida e, quando ia engatar a
primeira marcha, sentiu de novo o mal-estar. Agora havia uma dor forte
no peito. O ar começou a faltar... a dor foi aumentando... o carro
desapareceu... os outros carros também.... Os pilares, as paredes,
a porta, a claridade da rua, as luzes do teto, tudo foi sumindo diante
de seus olhos, ao mesmo tempo em que surgiam cenas de um filme que ele
conhecia bem.
Era como se o videocassete estivesse rodando em câmara
lenta. Quadro a quadro, ele via esposa, o netinho, a filha e, uma após
outra, todas as
pessoas que mais gostava.
Por que mesmo não tinha ido almoçar com
a filha e o neto? O que a esposa tinha dito à porta de casa quando
ele estava saindo, hoje de manhã? Por que não foi pescar
com os amigos no último feriado? A dor no peito
persistia, mas agora outra dor começava a perturbá-lo: a
do arrependimento. Ele não conseguia distinguir qual era a mais
forte, a da coronária entupida ou a de sua alma rasgando.
Escutou o barulho de alguma coisa quebrando dentro de
seu coração, e de seus olhos escorreram lágrimas silenciosas.
Queria viver, queria ter mais uma chance, queria voltar para casa
e beijar a esposa, abraçar a filha, brincar com o neto...
Queria .... Queria...Mas não deu tempo...

