Ricardo Alfaya

Rio de Janeiro (RJ) - Brasil

Brasil   


REVISÃO 2000, CAPÍTULO FINAL: ERRATA

Na Introdução,

Onde se lê: "Presidente da República",

Leia-se: "Tirano da Vida Pública".

No dente ciso terceiro, do artigo lá no quarto,

Em que se cobra: "Pagar a Conta da Dívida Externa",

Deve a coluna dobrar-se assim:

"Pagar Para Sempre a Dívida Eterna".

Na aurícula cardiovascular à esquerda,

Onde sangra: "Salário Mínimo",

Queira-se conformar: "Esse Salário é o Máximo!".

No testículo 12, saco cheio 23

No qual se espera: "Estado Soberano e Livre",

Deve-se encontrar: "Estado Submetido e Pobre".

Na margem em que se gritava: "Independência ou Morte!"

Convém gritar: "Entregar ao Estrangeiro a Própria Sorte!"

Onde se afirmava: "O Petróleo é Nosso".

Corrija-se para: "O Petróleo é deles".

Na página 35, parágrafo 44,

Anotado a lápis: "Faremos Tudo Pelo Social",

Pede-se simplesmente apagar.

Por fim, na última linha da última página,

Pendurada num barraco à beira do abismo,

Onde está a palavra: "Trabalhador"

Solicitamos substituir por: "Escravo".

A Planalto Plácido Palácio Editora

Agradece a paciência e compreensão

E continua a contar com o seu voto.


QUEBRA-NOZES

No palco,

Bailarinas dançam.

Jardim em movimento.


BRASIL SPLEEN

 

Diante do real

Para ver se espanto

O fantasma da moléstia

Efervescente fantasia

Sal de fruta & utopia

Engulo um poema.


ECOS LÓGICOS

Língua verde

como a mata e o capim

homem maduro

o que será do carmim?

Já faz um céu escuro

urro urro urro urro

e ouço os ecos

do mato da mata do norte.

Mingua a sede

se de fato houver

cacho cachoeira

bananas de ouro

em águas de prata.

Mas qual saci traiçoeiro

pulará de seu cachimbo

num dia de domingo

só pra ser meu salvador?


DA INDELICADEZA DOS SONHOS

Um brinde ao adeus

Ao adeus que um dia direi

Para sempre se Deus quiser

E se não me faltarem no momento

Força e lucidez para dizê-lo.

Por agora

Sonhos dispersos do verão

Onde estão?

Por que foram embora

Tão cedo

Sem se despedir?

Por que partiram

E partindo

Partiram-me também.

Do meu futuro

Adeus

Pertence somente por ora

Pequena parte

Um breve

Até breve

Que lhes deixo

A vida serve

Para o exercício

Das pequenas gentilezas.


BIG BOEING

Lá vai o avião

por entre a nuvem

a vida passando

eu de olho no vôo.

No caótico infinito

de um céu que já foi católico

a aeronave tem rumo certo.

Eu tenho a janela e os olhos

faltam-me asas mapas motor

e talvez (suportaria?)

maior cansaço da rodovia

(régua e compasso

arrumariam os esboços

de meus espaços?!)

Longe, o avião

(vazio? cheio?),

carregando outros corpos,

desejos aéreos,

para outros portos.


POETAS SÃO FEITIÇOS DE VENTO

Assim me disse Alfayeus

Nesta quente tarde de fevereiro:

Poetas não precisam de vento

São eles o próprio Tempo

E todo seu intento

Consiste em inventar a eles mesmos

O maior poema de um poeta

É a invenção de si mesmo.


UMA IDÉIA VELHA AZUL E DESBOTADA

(a Thiago de Mello)

Os temas de sempre

Continuam como o sempre

Amor desamor solidão

Criança lembrança

Homem mulher

Operário Patrão

O ser ou não ser

E o tentar esquecer

Olhando da varanda

Apenas uma palavra

Não sei por onde anda:

Liberdade!

Durante tanto tempo

Em verso e prosa cantada

Desapareceu num repente

Ter-se-á a profecia cumprido

Do grande poeta Thiago?

Já chegou a manhã da liberdade alcançada?

Ou o caso é bem diferente

E por toda essa gente

A liberdade não é mais desejada?