Fátima Barros

Camaragipe (PE) - Brasil

Brasil   
 
 

poema em branco

no rio das horas,

rumor de águas.

rebanho de sonhos

em fuga

e emboscada.

a poesia

feita de estanho

e estio, vaga.

tema castanho,

fruta amarga,

rima rouca.

verde romã:

a espera larga,

a palavra pouca.

mel de engenho

ou avelã

em tua boca.

sem empenho,

o dia vagueia

entre chuva e lã.

o poema

feito de teias

e marcas, tarda.

silêncio de facas

sobre a manhã.


vaga

tua voz, de súbito, cala

e a cidade é um rio sem barcos

no silêncio oco e pleno

de todos os náufragos.

o poema navega em tua mão:

descubro redes e remos no cais.

no ancoradouro das horas,

o ritmo de marés e sinais.

debruço-me na margem do dia,

os peixes nadam esquivos.

o branco de velas e vagas

nas águas quietas dos livros.


paisagem

no quadro,

o verão-miragem

de véu multicor.

no espaço da linha,

um céu de aquarela

aos ventos do sul.

amanhã, calmaria

nas entrelinhas

do anil-equador.

caravelas e vagas

em marcas claras

de água e sal.

a manhã-imagem

navega no azul

tom sobre cor.

barcos à vela

em longa estiagem:

a sede, o anzol.

na moldura-margem,

o tempo é um rio

de voz incolor.

luz sobre tela,

tua palavra-gesto

de mar e de sol.


Aquarela

Em refúgio, no barco,

te escuto.

Faz calmaria

em meu peito adverso.

Tua palavra-marco

traz peixe e maresia.

No rio,

o tempo submerso.


Murmúrio

Vultos

debruçam-se

em sonhos e barcos...

A rede

em teus braços

agita o rio.

Acordam-se

os peixes de súbito.

É noite

de pássaros

em estio...


Monólogo

Tua voz

ressuscita as palavras

no dicionário esquecidas

e reescreve os poemas

guardados a sete chaves

nas gavetas.

Tua voz

relê os livros empoeirados

nas prateleiras do tempo

e acorda os sonhos.

de propósito, esondidos no silêncio.


Diálogo

A noite

é a chuva lá fora

e tua voz.

Somos as palavras

esquecidas nas horas.

Quebramos, no silêncio,

o tempo sobre nós?


Perfil

Teu silêncio branco

tece a noite breve.

Flutua no rio

como um barco.

Recomponho teu retrato:

traço após traço...


Recado

Eras apenas

o olhar-imagem,

quieto, à sombra...

Um dia, de repente,

escuto tua voz

tão morna, tão branda...