Camaragipe (PE) - Brasil
poema em branco
no rio das horas,
rumor de águas.
rebanho de sonhos
em fuga
e emboscada.
a poesia
feita de estanho
e estio, vaga.
tema castanho,
fruta amarga,
rima rouca.
verde romã:
a espera larga,
a palavra pouca.
mel de engenho
ou avelã
em tua boca.
sem empenho,
o dia vagueia
entre chuva e lã.
o poema
feito de teias
e marcas, tarda.
silêncio de facas
sobre a manhã.
vaga
tua voz, de súbito, cala
e a cidade é um rio sem barcos
no silêncio oco e pleno
de todos os náufragos.
o poema navega em tua mão:
descubro redes e remos no cais.
no ancoradouro das horas,
o ritmo de marés e sinais.
debruço-me na margem do dia,
os peixes nadam esquivos.
o branco de velas e vagas
nas águas quietas dos livros.
paisagem
no quadro,
o verão-miragem
de véu multicor.
no espaço da linha,
um céu de aquarela
aos ventos do sul.
amanhã, calmaria
nas entrelinhas
do anil-equador.
caravelas e vagas
em marcas claras
de água e sal.
a manhã-imagem
navega no azul
tom sobre cor.
barcos à vela
em longa estiagem:
a sede, o anzol.
na moldura-margem,
o tempo é um rio
de voz incolor.
luz sobre tela,
tua palavra-gesto
de mar e de sol.
Aquarela
Em refúgio, no barco,
te escuto.
Faz calmaria
em meu peito adverso.
Tua palavra-marco
traz peixe e maresia.
No rio,
o tempo submerso.
Murmúrio
Vultos
debruçam-se
em sonhos e barcos...
A rede
em teus braços
agita o rio.
Acordam-se
os peixes de súbito.
É noite
de pássaros
em estio...
Monólogo
Tua voz
ressuscita as palavras
no dicionário esquecidas
e reescreve os poemas
guardados a sete chaves
nas gavetas.
Tua voz
relê os livros empoeirados
nas prateleiras do tempo
e acorda os sonhos.
de propósito, esondidos no silêncio.
Diálogo
A noite
é a chuva lá fora
e tua voz.
Somos as palavras
esquecidas nas horas.
Quebramos, no silêncio,
o tempo sobre nós?
Perfil
Teu silêncio branco
tece a noite breve.
Flutua no rio
como um barco.
Recomponho teu retrato:
traço após traço...
Recado
Eras apenas
o olhar-imagem,
quieto, à sombra...
Um dia, de repente,
escuto tua voz
tão morna, tão branda...