Jesus Eugênio de Luca Cardoso

Campo Grande (MS) - Brasil

Brasil   
 

OUTRA SILENTE NOITE UMBROSA

(J.E.Cardoso, citação)

 

Desejos pregressos.

Anseios regressos.

Uma busca talvez.

Com certeza vazia.

Substituindo desejos,

Enganado anseios.

Efêmeras falácias.

E regressa,

e cruenta,

e cruel,

e lenta...

Lágrimas vagas. Ausência.

Olhares vazios e temores frios e

Tremores rijos e rijeza vil.

Vileza hostil,

Hostilidade muda qual silêncio a fio.

Qual desejo infame,

Segredo que sangre.

Qual brado amordaçado,

Qual sepulcro exumado.

A terra não tolhe a falsa morte,

O segredo não sepulta o que há desta sorte.

Força alguma prende a verdade imunda,

rubra, que persegue e que simula,

Que se finge de reclusa e que apunhala à fragidez desnuda.

Que esvai-se e desvanece simulacro vão.

Que é marca de derrota que enlaça a mão,

Que guia a lâmina e que tinge o chão.

Extirpa este vazio,

derruba esta pilasta.

Segue teu rumo,

Que cedo ou tarde há de tudo à mesma casta.

Sem dor, sem sorte, paraíso.

Silêncio à morte, acolhedor oblívio.


A Sombra de Ellora

Ellora senta-se sobre um bloco de granito movido do pavimento para uma barricada sobre a qual ela própria marchou noite adentro, tendo apenas o luar como a luz de seu caminho.

Empurra um pouco o corpo dum vitimado a fim de fazer mais cômoda a sua postura.

Logo as trevas senhoriais viriam para reanimá-los, e mais desmortos haveriam para o grande momento.

Olhou-se. Observou as placas leves e rígidas da armadura que lhe fora presenteada.

Armadura certamente adquirida n'algum pacto vil com algum ser dos abismos sulfurosos.

Lembrou-se de quando conhecera seu benfeitor:

Chamas ardentes, queimaduras, dor, deformidades.

A rejeição daquela por quem daria a vida, a expulsão...

Uma noite de embriaguez, um negligenciar-se aos violadores, uma dor sofrida.

E eis que ele veio envolto em trevas. Poder exilado, rancor desossado.

Há muito perecera ao consumir duma venenosa beberagem

que d'Ele tirou a vida e os calores corpóreos.

E há tanto ele morrera e já tão frio ele era... O calor dos corpos dos vis

violadores enregelava-se e desfazia-se ao seu toque, tornando a violência

deste o menor dos males por eles padecidos.

E pereciam todos na deseperadora postura de suas quedas.

E ao longe as melodias belas, melodias vãs, distraíam os refestelantes que

brandiam flores e com elas escondiam sua alegre e fervorosa indiferença.

Indiferentes que hoje esvaem-se nestas poças sangüineas em que os pés dela

imergem.

Perecidos pelo rancor que ela guardara.

Ela, viva, instrumento do fantocheiro mortuário.

Tirou dela o absinto com que suavizava suas dores sepulcrais, extinguiu

aqueles que a violavam.

Não por amor, mas por garantia da prestimosa servidão.

E sem qualquer som, como se não existisse se não como uma ausência que por si só é manifesta,

Adentrou os olhares de Ellora observando em detalhes o estado dos corpos que ela cabara de prover.

Nas trevas de seu manto negro só vê um rosto cadavérico e inexpressivo.

Apenas Uma palavra

("Congratulações...") mostrava a execução a contento. Ela nunca esperava

Muitas palavras dele, afinal, o que era preciso já lhe fora dito em seus

ensinamentos.

E Os deveres já por ela bem-sabidos. E seu os desejos? Apenas agradá-lo.

E talvez um dia ter de novo a carinhosa consideração que dele teve outrora.

Sonhar com isso lhe fortalecia, e o modo reticente com que as palavras eram

ditas aguçavam a expecativa por algo que desejosamente anseia ouvir.

Do mesmo modo lhe satisfazia Castigar aqueles que se refestelavam

indiferentes à sua dor ou,

desejosa data, levar arrependimento àquela que a rejeitara, não por seu

caráter,

mas por sua natureza, apesar de toda a lealdade oferecida, apesar de tudo o

que por

ela realizara a contento, a despeito das dificuldades, sacrifícios e

deformidades sofridas

em nome dela, apesar de tudo a que se expora por ela.

Já não mais lealdade havia por aquela que a traíra no ato da rejeição,

senão, o desejo de

fazê-la arrepender-se pelo desdém que fere mais que todos os vilipêndios

sofrera outrora.

Exausta, repousava sobre os escombros da murada,

e o luar refletia-se no sangue, na armadura e nos impecáveis cabelos negros,

agora soltos, sob o frescor do orvalho de odor ferruginoso.

Ia, a contento, admirando os gestos precisos, Rúnicos, como os duma

dança que à força destes símbolos, os mortos hão de erguer.

E, antes do findar da noite, com as trevas caminharão, como é por ela

bem-sabido por tudo o que com ele tem vivido.

Ia deleitando-se na visão desta dança,  e por participar cresce a sua ânsia,

e o medo a retém em seu descanso

e sua dedicação lhe tolhe o anseio

na exaustão sublime que lhe prende o cenho.



 

 "Passos bobos,

imensos cambaleios,

Sentidos da dor

Infimez mundana.

Opressão, claustro e fuga

pranto, leviandade Humana.

Pesar, temor, asfixia.

Testemunho, fuga mundana

Amores falsos, Abrigos transitórios

Egoísmo, futilidade, efeméride.

 

Moedas de troca, produtos do artifício.

Fez-se o mundo errado.

Produto do homem.

Antagonista e só...

Quando as pessoas amarem-se

Quando elas se tornarem incapazes de destruir-se,

Quando não mais houver tamanha indiferença

Indiferença ao sangue que se esvai languidamente,

Será muito tarde para chorar,

Como eu choro,

Por tudo aquilo que se foi

e que jamais será de novo. "

 

Era Aquele cujo nome já não mais é proferido.

Aquele que apossou-se das trevas e delas,

e nelas,

assenhorou-se.

Ele rememorava o passado

no aguardar dos atos ordenados a uma dedicada Lacaia.

Sentado, ainda que indiferente à posição corpórea,

no trono de granito que precede a posse deste lugar de trevas onde o fluxo

do tempo é irregular,

ia repetindo-se às suas memórias, e sobre elas ia conjecturando, e sobre sua

vivência ia planejando e o fututro assim ia moldando.

Já não vivia há muito.

Violada porém a natureza, ele ainda existia.

Não necessitava sorver da rubra fluidez de outrem,

como necessitavam outros que conhecera.

Ainda assim, como eles, Já não mais podia coexistir com luz diurna.

Não sentia falta do sol ou da luz,

se não daquela que com ele sob a luz viveu.

E seu passado... Seu passado (ou um fragmento deste)

era a única valiosa coisa que ainda lhe restava.

A única razão por que existir além, em troca do poder para

compensar o vilipêndio sobre aquela que amara, e que ainda ama.

Os conhecimentos que acumulou nas

incontadas datas que sobrepujara tinham esta única e certa serventia.

O espelho que possuia em seus aposentos umbrais, e que tinha agora diante de si, não lhe servia Aos comuns fins dos espelhos de toda sorte.

Servia, sim, ao conhecer daquilo que o dia lhe priva

e usar de tais para seu poder sobre os viventes exercer,

e seu poder sobre o dia estender, até que possa

compensar a sua dor, incessante como sua persistente existência

posterior à sua prematura rigidez,

posterior ao seu apartamento à luz.

E aquela que ainda ama... Já nem em espírito mais existe.

A essência (dela) tragada por uma dívida herdada do

progenintor num pacto com o que há de vilipendioso

na sobre-natureza das coisas que cessam a vida.

A amada, moeda de troca,

protegida daquele que muito sua ausência sente e

que hoje impera a grande noite umbrosa nestas câmaras senhoriais.

E o objeto de desejo do progenintor era o sumo-pontifício de Thanatos,

Título de poder. O progenintor daquela que ele tanto ama o necessitava por

Motivos que todo séquito ignorava.

Sente, ainda hoje, merecida culpa por ter participado de tal culto.

Não se arrepende do tempo em que fora um séquito,

senão por seus atos em favor da dívida paga por seu Sumo Hierarca.

Alivia-se, ao menos, com sua rebeldia levando aquela que deveria proteger

(e que ainda ama).

Dói-lhe não ter tido o poder suficiente para contrapor-se àquele que devia a

Thanatos.

Castiga-lhe o espírito, que persiste em reter-se no cadavérico corpo

secular, a sua fuga ao enfrentamento dos muitos séquitos, como ele fora.

Séquitos que, sendo muitos tomaram-lhe a amada e deleitaram-se dela

no exercício do poder que lhes fora concedido para alcançá-la.

E daquela que era ela, nada mais restava após o deleite e desvanacência

da entrega a Thanatos.

E e sua alma, consumida, na presença daquele que tudo concedera ao

progenintor.

E nas memórias do ocaso de sua breve felicidade ao lado daquela que amou,

e que ainda ama, via, pelo espelho, cumprido o dever de sua lacaia.

Defuntos inteiros, melhores servos, de todo pela cidade amontoados.

Cada coração trespassado pela espada com que presenteara Ellora.

Corpos inteiros, Corações destruídos, sempre mais servis que qualquer vivo

de coração íntegro...

Sorria-se, apesar de seu corpo já não permitir tal luxo.

Deleitava-se na supremacia com que dispersava os impecilhos a seus intentos

de extinguir Thanatos.

Thanatos, Causa primeira de toda a dor que sente, causa primeira da extinção

da alma daquela

que ama, apesar de tal amor existir por alguém que NEM DE FATO EXISTE.

Sorriu-se pela vitória que já desponta na vil, mas útil, aquisição.

Sorriu-se por estar aquém de Thanatos, sorriu-se ao lembrar daqueles

fantoches de coração íntegro que conduzira contra o progenintor daquela que ama, e contra os séquitos dele, com promessas (f)úteis.

E com promessas (f)úteis extinguiu templo, Pontífice, séquitos (velhos

companheiros), tudo, enfim, do seu passado.

Nada disso lhe satisfez, e sua inquietude persiste como sua dor.

Quer poder sobre os de coração íntegro, Não quer trespassar a todos ou

Jamais poderá desafiar aquele que sobre os desmortos sempre terá maior

poder.

Ingressando através do espelho das câmaras umbrais à cidade ensangüentada,

viu-a, sua lacaia, de corpos rodeada.

Observou, atento à eficácia da incumbência executada.

"Satisfatório", pronunciu.

Não estendeu-se em comentários.

A noite seria longa e repleta dos rituais com que reanimaria tantos corpos.

Achava curioso o tamanho apreço de Ellora por sua incumbência.

Não apropriava-se dos expólios como esperado.

Admirava-se, pois cada lacaio que a precedeu trespassava corações em troca

dos recursos que ele concedia

e da oportunidade de apropriar-se do espólio que com cada morto jazia.

Admirava o invisível apreço que deduzia haver nela por praticar tais atos

com tamanho desinteresse.

Satisfazia-o, a abnegação com que ela lhe servia.

Quando oportuno, escrutaria melhor esta lacaia, há de utilizar de todo

esta abnegação tamanha.

Por hora, Deve concentrar-se em sua ambição,

e até deleitar-se com a platéia que ela constitui, ali,

inquieta e lânguida,

observando de sua ilha no lago de sangue,

os mortos erguerem-se ao comando dos ritos viciosos das trevas senhoriais.