Rio de Janeiro (RJ) - Brasil
OS DEUSES TAMBÉM MORREM
Se tenho a alma sofrida e triste
vós me exigis a alegria artificial
de um espantalho.
Se nasci feio e desprovido de encantos,
vós não me suportais
e me bateis a porta na cara,
sem nenhum remorso, batendo as mãos,
indiferentemente.
Se vivo apenas do meu trabalho
e isto me traz felicidade,
vós me desprezais
porque sempre dependestes
do trabalho alheio
para poder viver.
Se após muito esforço
consigo esboçar um sorriso,
vós começais a escarnecer,
porque estou sorrindo
para aquém da alegria, amareladamente.
Sereis todos, por acaso, deuses?
E que não usam espelhos?
E por que, diabos, tenho eu de atender
a todas as vossas rígidas
exigências,
para que possa ser aceito em vosso
convívio?
Vós apenas fazeis exigências
sobre o que não posso modificar,
porque nasci assim,
defeituoso como um ser humano,
e mesmo que desejasse atendê-las,
nada poderia fazer,
pois que isto está além
da possibilidade de mudança.
Entretanto mesmo quando estou evoluindo,
construindo novas imagens de um mundo
melhor,
nada disso vos interessa,
pois que estou fazendo
apenas aquilo que posso fazer,
com os elementos que tenho acesso.
E até mesmo os sonhos, a imaginação,
os alimentos do espírito,
são desprezíveis à
vossos olhos,
porque é algo que ainda posso
construir.
Neste mundo habitado e dirigido por
deuses mortais,
eu sou mesmo incompetente
se disponho apenas dos sonhos e da
imaginação.
Mas, ó deuses, imperfeitos
arautos
da perfeição impossível!
Por que não consigo satisfazer
vossos caprichos,
mesmo quando realizo alguma proeza,
ainda que pequena,
ainda que humana,
ainda que dentro das minha possibilidades?
Por que me condenais à estagnação
perpétua,
e não podeis admitir que eu
seja capaz
de criar a beleza de um outro mundo
que tentais insistentemente desconhecer?
Imagino o esforço que fazeis
para manter essa máscara divina,
presa à face exigente e fria.
Avalio o sofrimento por que passais,
ao tentar sufocar vossas limitações
humanas,
para poder exigir de nós,
a postura de super-homens.
Se algo existe a nos separar
é apenas uma linha frágil,
entre os que aceitam as limitações
humanas
e os que se sentem ridículos
sendo apenas meramente humanos.
(*) Publicado em:
1) 'Boletim da Banca do Pó-etá' -
Nº 12 - DEZ/88 - Rio de Janeiro (RJ)
2) 'Poesia & Prosa' de Marisa Fillet Bueloni
- JUL/88 - Piracicaba (SP)
3) 'O Vale do Aço' - JUL/88 - Cel. Fabriciano
(MG)
Libertas Quae Sera Tamen ou
Liberdade Ainda que Tardia
Você gosta de um sorriso nos lábios?
Não? Ah! Você prefere vender mais creme dental?
Tudo bem...

Você gosta de crianças brincando na relva?
Não? Ah! Você prefere os lucros de Cubatão?
Tudo bem...

Você não fuma porque o cigarro pode provocar o câncer?
Não? Ah! Você acha que é negócio ser livre
pelo menos para escolher a marca do seu cigarro?
Tudo bem...

Você está o tempo todo investindo nas pessoas?
Não? Ah! Você prefere investir todo o seu amor na Bolsa?
Tudo bem...

Você nada na piscina, enquanto o país é invadido pelos
tubarões?
Ah! Não é nada disso?
Quando eles chegam, você tem sempre mão-de-obra barata para
oferecer?
Tudo bem...

Você gostaria de escolher seu Presidente?
Ah! Não? Você prefere encolher os ombros
porque não se julga ainda preparado para fazê-lo?
Ah! Entendi! Prefere aprender no Colégio?
Tudo bem...

Você ama a Natureza, as florestas, os animais e todos nós?
Ah! Não? Você prefere a caçada, a queimada, a guerra
e as usinas nucleares?
Tudo bem...

Mas se durante a caçada, o deserto chegar e aprisionar sua água?
Você sua frio?
Você tem medo?
Nesse caso você luta pela Liberdade e pela Vida?
Tudo bem?! Não?
Ah! Pelo menos alguma coisa nós temos em comum!!!
1) Publicado em 'Boletim da Banca Nacional de Literatura
Independente' - DEZ/1984 - Rio de Janeiro (RJ).
2) Publicado em 'Verso Reverso' - SET/NOV/1985 -
Rio de Janeiro (RJ).
3) Publicado em 'A Toca do (meu) Poeta' - ABR/1986
- Guarabira (PB).
4) Publicado em 'Folha da Terra' - AGO/1986 - Serrinha
(BA).
5) Publicado em 'Matéria Paga' - MAR/ABR/1987
- Recife (PE).
6) Do livro 'Libertas quae Sera Tamen
ou Escravo, Portanto Escrevo' - Ed. Ribro Arte - Rio de Janeiro - 1987
- 62 p.
corrente de ferro
Para Juarez Ventura
corrente
de
ferro
não
a
corrente
do
MAR
Do livro 'Incêndio Menor' - Ed. do autor -
Rio de Janeiro - 1981 - 44 p.
Tratado do Bom Comportamento ou
Acostume-se à Lama que lhe Espera
Homenagem à Augusto
dos Anjos
Você nunca deve falar alto o que pensa,
pois seu emprego depende de seu silêncio;
suporte tudo caladinho
que pelo menos as migalhas
não vão faltar.

Pra quem fica de boca fechada,
o futuro é pequeno, porém garantido.
Se você exigir respeito,
na certa vai se arrepender;
espere mais um pouco,
quando a crise passar
quem sabe tudo vai melhorar.

Você não deve reclamar do arrocho,
porque podia ser bem pior.
Acostume-se à comida parca,
já que a fome não vai ser passageira.
Dinheiro pouco? Seu credor primeiro.
Se a miséria é inevitável,
relaxe e aproveite.

Você trabalha muito,
recebe menos ainda,
mas o orgulho é grande ...
um dia, aposentado,
você ainda vai ser feliz.

Se a mulher reclama
e as crianças choram no seu nariz,
jogue baralho,
beba cerveja,
que você acaba
esquecendo o que ela diz.

E se nada tem jeito,
se o futuro está distante,
e você ficou cansado
de ouvir promessas,
acalme-se,
tome um fósforo
e acenda seu cigarro ...
logo você esquece
e conformista você pensa:
seja pobre ou seja rica,
com sete palmos de terra,
todo mundo fica.

Para sua maior segurança,
conserve a direita,
não use a cabeça,
que vale a pena a viagem,
o motorista lhe reserva,
com certeza,
um lugar na bagagem.

E se a vida passou
vazia e sem sentido,
console-se:
faça corpo-mole
que saco vazio
não fica em pé.

E finalmente
como hoje em dia
nada mais é gratuito,
pelo menos sorria satisfeito,
estes conselhos são de graça
e lhe asseguro:
você escapa com certeza da polícia
e garante um lugar na História
ao lado da maioria silenciosa
que governa este país.
1) Publicado em 'Boletim da Banca Nacional de Literatura
Independente' - ABR/1985 - Rio de Janeiro (RJ).
2) Publicado em 'Galo de Briga' - 29/MAI/1987 - Rio
de Janeiro (RJ).
3) Do livro 'Libertas quae Sera Tamen ou Escravo,
Portanto Escrevo' - Ed. Ribro Arte - Rio de Janeiro - 1987 - 62 p.
