Douglas Carrara

Rio de Janeiro (RJ) - Brasil

Brasil   


OS DEUSES TAMBÉM MORREM

Se tenho a alma sofrida e triste

vós me exigis a alegria artificial de um espantalho.

 

Se nasci feio e desprovido de encantos,

vós não me suportais e me bateis a porta na cara,

sem nenhum remorso, batendo as mãos,

indiferentemente.

 

Se vivo apenas do meu trabalho

e isto me traz felicidade,

vós me desprezais

porque sempre dependestes

do trabalho alheio

para poder viver.

 

Se após muito esforço

consigo esboçar um sorriso,

vós começais a escarnecer,

porque estou sorrindo

para aquém da alegria, amareladamente.

Sereis todos, por acaso, deuses?

E que não usam espelhos?

E por que, diabos, tenho eu de atender

a todas as vossas rígidas exigências,

para que possa ser aceito em vosso convívio?

 

Vós apenas fazeis exigências

sobre o que não posso modificar,

porque nasci assim,

defeituoso como um ser humano,

e mesmo que desejasse atendê-las,

nada poderia fazer,

pois que isto está além

da possibilidade de mudança.

Entretanto mesmo quando estou evoluindo,

construindo novas imagens de um mundo melhor,

nada disso vos interessa,

pois que estou fazendo

apenas aquilo que posso fazer,

com os elementos que tenho acesso.

E até mesmo os sonhos, a imaginação, os alimentos do espírito,

são desprezíveis à vossos olhos,

porque é algo que ainda posso construir.

Neste mundo habitado e dirigido por deuses mortais,

eu sou mesmo incompetente

se disponho apenas dos sonhos e da imaginação.

 

Mas, ó deuses, imperfeitos arautos

da perfeição impossível!

Por que não consigo satisfazer vossos caprichos,

mesmo quando realizo alguma proeza,

ainda que pequena,

ainda que humana,

ainda que dentro das minha possibilidades?

Por que me condenais à estagnação perpétua,

e não podeis admitir que eu seja capaz

de criar a beleza de um outro mundo

que tentais insistentemente desconhecer?

Imagino o esforço que fazeis

para manter essa máscara divina,

presa à face exigente e fria.

Avalio o sofrimento por que passais,

ao tentar sufocar vossas limitações humanas,

para poder exigir de nós,

a postura de super-homens.

Se algo existe a nos separar

é apenas uma linha frágil,

entre os que aceitam as limitações humanas

e os que se sentem ridículos

sendo apenas meramente humanos.


(*) Publicado em:

1) 'Boletim da Banca do Pó-etá' -  Nº 12 - DEZ/88  - Rio de Janeiro (RJ)

2)  'Poesia & Prosa' de Marisa Fillet Bueloni - JUL/88 - Piracicaba (SP)

3)  'O Vale do Aço' - JUL/88 - Cel. Fabriciano (MG)


Libertas Quae Sera Tamen ou

Liberdade Ainda que Tardia

Você gosta de um sorriso nos lábios?

Não? Ah! Você prefere vender mais creme dental?

Tudo bem...

Você gosta de crianças brincando na relva?

Não? Ah! Você prefere os lucros de Cubatão?

Tudo bem...

Você não fuma porque o cigarro pode provocar o câncer?

Não? Ah! Você acha que é negócio ser livre

pelo menos para escolher a marca do seu cigarro?

Tudo bem...

Você está o tempo todo investindo nas pessoas?

Não? Ah! Você prefere investir todo o seu amor na Bolsa?

Tudo bem...

Você nada na piscina, enquanto o país é invadido pelos tubarões?

Ah! Não é nada disso?

Quando eles chegam, você tem sempre mão-de-obra barata para oferecer?

Tudo bem...

Você gostaria de escolher seu Presidente?

Ah! Não? Você prefere encolher os ombros

porque não se julga ainda preparado para fazê-lo?

Ah! Entendi! Prefere aprender no Colégio?

Tudo bem...

Você ama a Natureza, as florestas, os animais e todos nós?

Ah! Não? Você prefere a caçada, a queimada, a guerra e as usinas nucleares?

Tudo bem...

Mas se durante a caçada, o deserto chegar e aprisionar sua água?

Você sua frio?

Você tem medo?

Nesse caso você luta pela Liberdade e pela Vida?

Tudo bem?! Não?

Ah! Pelo menos alguma coisa nós temos em comum!!!


1) Publicado em 'Boletim da Banca Nacional de Literatura Independente' - DEZ/1984 - Rio de Janeiro (RJ).

2) Publicado em 'Verso Reverso' - SET/NOV/1985 - Rio de Janeiro (RJ).

3) Publicado em 'A Toca do (meu) Poeta' - ABR/1986 - Guarabira (PB).

4) Publicado em 'Folha da Terra' - AGO/1986 - Serrinha (BA).

5) Publicado em 'Matéria Paga' - MAR/ABR/1987 - Recife (PE).

 6) Do livro 'Libertas quae Sera Tamen ou Escravo, Portanto Escrevo' - Ed. Ribro Arte - Rio de Janeiro - 1987 - 62 p.


corrente de ferro

 Para  Juarez Ventura

corrente

de

ferro

 não

a

corrente

do

MAR


Do livro 'Incêndio Menor' - Ed. do autor - Rio de Janeiro - 1981 - 44 p.



 

Tratado do Bom Comportamento ou

Acostume-se à Lama que lhe Espera

Homenagem à Augusto dos Anjos
 

Você nunca deve falar alto o que pensa,

pois seu emprego depende de seu silêncio;

suporte tudo caladinho

que pelo menos as migalhas

não vão faltar.

 

Pra quem fica de boca fechada,

o futuro é pequeno, porém garantido.

Se você exigir respeito,

na certa vai se arrepender;

espere mais um pouco,

quando a crise passar

quem sabe tudo vai melhorar.

Você não deve reclamar do arrocho,

porque podia ser bem pior.

Acostume-se à comida parca,

já que a fome não vai ser passageira.

Dinheiro pouco? Seu credor primeiro.

Se a miséria é inevitável,

relaxe e aproveite.

 

Você trabalha muito,

recebe menos ainda,

mas o orgulho é grande ...

um dia, aposentado,

você ainda vai ser feliz.

Se a mulher reclama

e as crianças choram no seu nariz,

jogue baralho,

beba cerveja,

que você acaba

esquecendo o que ela diz.

E se nada tem jeito,

se o futuro está distante,

e você ficou cansado

de ouvir promessas,

acalme-se,

tome um fósforo

e acenda seu cigarro ...

logo você esquece

e conformista você pensa:

seja pobre ou seja rica,

com sete palmos de terra,

todo mundo fica.

 

Para sua maior segurança,

conserve a direita,

não use a cabeça,

que vale a pena a viagem,

o motorista lhe reserva,

com certeza,

um lugar na bagagem.

 

E se a vida passou

vazia e sem sentido,

console-se:

faça corpo-mole

que saco vazio

não fica em pé.

E finalmente

como hoje em dia

nada mais é gratuito,

pelo menos sorria satisfeito,

estes conselhos são de graça

e lhe asseguro:

você escapa com certeza da polícia

e garante um lugar na História

ao lado da maioria silenciosa

que governa este país.


1) Publicado em 'Boletim da Banca Nacional de Literatura Independente' -  ABR/1985 - Rio de Janeiro (RJ).

2) Publicado em 'Galo de Briga' - 29/MAI/1987 - Rio de Janeiro (RJ).

3) Do livro 'Libertas quae Sera Tamen ou Escravo, Portanto Escrevo' - Ed. Ribro Arte - Rio de Janeiro - 1987 - 62 p.