Salomão Rovedo

Rio de Janeiro (RJ) - Brasil

Brasil   

OBITUÁRIO ECOLÓGICO (I)

 

Já se vai longe o tempo dos mastodontes,

tempo das histórias da pré-história,

quando a inclemência do tempo,

a luta da sobrevivência eliminava espécies.

Já se vai longe a Época Terciária,

o Período Glaciário que submeteu a Terra

e habitantes ao rigor do clima polar assassino.

Já se vai longe o tempo dos dinossauros:

hoje, que tanta maldição natural não ocorre,

nós somos a maldição - fazemos da Jaguatirica

e do Jacaré couros para exportação.

Mas hoje, quando erigimos a civilização

de períodos nobres, prédios e cidades modernas,

luxuosas cidades para o terceiro milênio,

fazemos do macaco sagüiguaçu, da tartaruga marinha,

petiscos de restaurante, sabores da extinção.

Hoje, não cansamos de destruir o homem na guerra

e na fome, fazemos também chegar às araras,

à rola azul e às outras aves, o terror do extermínio.

Somos homens - animais racionais (somos mesmo?)

e nosso prazer maior é destruir a fauna, a flora,

jogar lixo tóxico nos rios, extrair madeira sem fim,

de matas finitas, sujar os oceanos com dejetos e refugos.

Somos a eterna e violenta pré-história do futuro,

somos a destruição, somos os terremotos,os vulcões,

somos os tornados, o frio glacial da nova era,

somos o furacão, SOMOS A MALDIÇÃO DO MUNDO.


OBITUÁRIO ECOLÓGICO (II)

Existe em todos nós um rio que corre

escondido entre as matas da infância,

uma paisagem, um verde que não morre,

nos segue, nos persegue na constância.

É esse veio que à memória acorre

se da sedentária vida há repugnância,

se aquela força natural nos escorre

antes que alguma salvação alcance-a.

Para ter acendido toda labareda infantil,

manter sempre viva a roda de saudade,

mister é respeitar a mãe Natureza,

não fazer da Terra um campo mercantil

de onde tudo expropriamos à saciedade

e tudo se transforma em mar de tristeza.


OBITUÁRIO ECOLÓGICO (III)

 

Voltar, me falam, voltar a ver a vesga terra,

as várzeas, sim tem, a velha Terra tem várzeas

tal as comoventes figuras de folhinha,

ver tudo o mais que vaga no tempo físico.

Voltar a ter a felicidade de ver vacas vadias

pastando taioba, voltar e ficar de vadiagem,

vai e vem vagabundo, falando "vambora",

ouvindo "vosmicê", fingindo valentia,

conversando na esquina, farofando vantagem.

Voltar à terra família, ouvir o tico-tico, o tem-tem,

trepar no tamarindeiro e, varado de fome,

fruir um prato fumegante, com furor voraz,

carneiro, peixe, galinha, pirão, bode, camarão...

Voltar à vida frugal, mas sem tensão, sem fadiga,

sem a tacanhice, o tumulto que faz a turba da cidade.

Ter o fadário (velho fadário de lutas e vitórias),

de feliz fluorescência, visões alquímicas, florais,

sob a sombra do tabocal, sob o telhado de buritizeiro.

Tornar à terra face à face com o Destino,

fruir da fartura e fatigado de tanto folguedo

revirar ao que foi, ter a floresta tersa na varanda,

verter água no chão, livre, sem tabus.

Ao fim transformar-se num trasgo visguento

a vagar no frio grego da noite, vela na mão,

fantasmagórico, remelento, traste a tornar

para a vida de pacatos tapuios, inferno feliz...

Voltar, me dizem, voltar a ver a terra mãe,

vibrar ao festim do verão que vara todo o ano,

enfrentar o fogo ardente da mulher na fonte

e ver o verde, ver o verde, ver as flores,

ver as flores e amar o torrão, o velho torrão,

a fagueira rapadura natal, tal e qual as figuras

comoventes retratos estrangeiros das folhinhas,

- tudo que vaga entre o tempo físico e o tempo memória

- tresloucado tempo que tudo isso nos faz faltar,

- endiabrado tempo que a tudo nos faz voltar.


OBITUÁRIO ECOLÓGICO (IV)

 

Da terra tudo se tira, tudo se consome,

a terra sacia a sede, a terra mata a fome.

Do chão nasce a árvore, da árvore o fruto

(Quando morre a planta a terra fica de luto).

No rio vivem os peixes que a gente alimenta,

a água é santificada, a água do rio é benta.

Para todos ao males há remédios naturais

-- sarar assim é bom, a gente vive mais.

Sentar no banco e relembrar o interior,

gostar das aves, dos bichos, amar o verdor.

Não destruir os fantasmas de nossa herança,

- que restou do tempo longínquo de criança.

Defender a pureza do ar, da água, da comida,

como se fosse a última coisa a fazer na vida!


 

OBITUÁRIO ECOLÓGICO (V)

Bendita chuva! Bendita chuva!

(Quando as plantas regam

e a terra deixa úmida

pronta para a semeadura).

Maldita chuva! Maldita chuva!

(Quando arrasta as casas,

barracos pendurados no morro

na periferia das cidades).

- Dramática mensagem da natureza,

um chamado para tornar ao campo.